Absorvendo o Tabu – Um filme sobre Pobreza Menstrual

Absorvendo o Tabu – Um filme sobre Pobreza Menstrual
Absorvendo o Tabu – Um filme sobre Pobreza Menstrual
Olivia Batista de Avelar

Você já ouviu falar sobre pobreza menstrual? A pobreza menstrual, também chamada de precariedade menstrual, é o termo dado à falta de acesso a produtos para manter uma boa higiene no período da menstruação. Porém, esse termo não se resume à falta de dinheiro para comprar produtos de higiene menstrual adequados. O termo denuncia um problema global da falta de acesso à água, saneamento básico e desigualdade social. Já mencionei aqui, em duas colunas anteriores, sobre como as situações sociais recaem, sempre, de maneira mais pesada e injusta sobre as mulheres. No artigo sobre o filme “A ganha-pão”, que tratava sobre o retorno do Talibã ao poder no Afeganistão, a pequena Parvana, personagem principal dessa animação, nos mostra ao longo da história como o regime violento e autoritário do Talibã é esmagador para toda a população afegã – mas como ele é absurdamente mais cruel com as mulheres: sejam elas meninas, impedidas de estudar, forçadas a serem esposas ou prostitutas; mulheres adultas, que não podem sair de casa desacompanhadas e que devem cobrir todo o corpo, que podem ser agredidas fisicamente pelos maridos; ou idosas, que não tem acesso aos cuidados médicos necessários e que, muitas vezes, realizam trabalhos forçados ou terminam a vida como pedintes pelas ruas de seu país.

Em outro artigo, sobre o filme “Milada”, tentei construir uma reflexão sobre como os períodos de guerra também trazem maus tratos, violência e perda de direitos humanos para as mulheres dos países em conflito: elas travam uma outra guerra, longe dos fronts de batalha e que recebe muito pouca, ou quase nenhuma, atenção. O documentário “Absorvendo o Tabu” – filme que escolhi para a coluna dessa semana, é um curta metragem, disponível na Netflix, que toca em dois assuntos extremamente relevantes e urgentes: a pobreza e em como ela afeta muito mais duramente as mulheres.

Absorvendo o Tabu, ganhador do Oscar 2019 de melhor documentário curta-metragem, conta a história de como foi desenvolvida uma máquina para fazer absorventes biodegradáveis e de baixo custo nos vilarejos indianos. Para a grande maioria de nós, é bastante improvável que sejamos alheios à realidade mundial e, principalmente, brasileira, com relação aos níveis crescentes de pessoas que vivem em situação de pobreza. Todos os dias, somos sensibilizados a participar de ações humanitárias, que promovem arrecadação de alimentos, de agasalho, de fraldas e dinheiro, para ajudar – pontual ou de forma mais abrangente – pessoas em situação de rua ou aquelas que vivem em situação de miséria.

Porém, a higiene pessoal das mulheres é sistematicamente negligenciada e isso é, para dizer o mínimo, chocante e esclarecedor de como a sociedade trata as mulheres e as necessidades específicas de seus corpos, porque é fato que todas as mulheres menstruam, mas, de alguma forma, essa necessidade básica, esse direito ao mínimo de higiene não é levado sério e não é discutido pela sociedade com o respeito e a relevância que o assunto merece.

O curta-metragem relata a situação das adolescentes e das mulheres indianas – principalmente das mais pobres e de zona rural – que usam panos velhos, jornal e até miolo de pão como substitutos dos produtos de higiene pessoal. Mas se engana quem acredita que a situação das indianas é diferente do que muitas mulheres vivem aqui no Brasil. Na última quinta-feira, sete de outubro, o presidente Jair Bolsonaro vetou o Projeto de Lei nº 4968/19, que prevê a distribuição gratuita de absorventes em escolas públicas, penitenciárias e obrigava a inclusão do produto em cestas básicas. A lei seria de grande avanço para combater a pobreza menstrual. Um projeto de lei que além de assegurar a saúde física dessa parcela tão negligenciada da população, visava promover dignidade e respeito para tantas meninas e mulheres que precisam conviver, mensalmente, com um acesso precário às condições mínimas de higiene e controle da menstruação.

Esse veto foi, infelizmente, somente mais um ato de total descaso, desrespeito e violência com que o chefe do nosso poder executivo trata as mulheres pobres do nosso país.

Nelson Mandela disse: “uma nação não deve ser julgada pela forma como trata seus cidadãos mais elevados, mas sim pela forma como trata seus menos favorecidos.” O Brasil é uma nação que odeia e humilha o pobre e, portanto, que humilha, exclui, invisibiliza e violenta as mulheres pobres. Sobre as mulheres, o peso desse governo – que pratica uma necropolítica escancarada e aplaudida por muitos – é, todos os dias, um peso insuportável, desumano, abjeto e vil.

 

Olivia Batista de Avelar. Professora de inglês, pós graduada em filosofia, apaixonada por cinema e escritora
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