Passei a perder muitas coisas pequenas depois disso:
lápis, borrachas, chaves, moedas, minutos.
Nunca me recuperei.
Milena Paixão
Sob os escombros, sustento, muitas vezes, uma vida. Pairo no ar e equilibro o corpo dolorido entre pedras deixadas por aí. Por dias, me machuco, faço orifícios, execro sensações e encaminho aos subterfúgios o que sinto ser mais danoso.
Nada é tão inflamatório nestes dias. E não cura com antibióticos ou remédios mais fortes. Não cura com gelo que se derrete na pele. Não se ameniza com massagens e creme com cânfora, nem tão pouco se alivia com medicamentos tópicos. Inflama, sangra, cria cascas e, por agora, não há risco de cicatrização.
Costuma dar uma hiperplasia fibrosa e elevada, que se mostra a pele, mesmo escondida em tecidos. É nesta sangria que me enxergo mais humana, mais incapaz de tomar as rédeas e mudar o curso de qualquer história.
Mas, há um depois. E depois da desordem? Do luto? Da dor que vicia? Das náuseas que me tornam tantas vezes moribunda? E depois das dores que latejam meus versos? Há um depois que sobra na gente, que alcança uma sapiência, embala o corpo como aquelas velhas canções de amor.
Um após que visita as almas mais enegrecidas ou sombrias que cobre quando me deito e solidariza com a minha angústia. É capaz de me doar a parte mais bonita, o pedaço de desejo, um terço de paz e um pouco mais de amor.
Neste porvir, desenho os sonhos menos toleráveis e o que de tão insuportável foi capaz de conversões, de explosões que migraram para minhas outras partes, por certo não sondáveis. Não é canalhice nem falta do que crer, é a vida curvilínea, as afrontas sucedidas pós-domingo, pós-separações, pós-nascimentos e mortes.
É o curso transitório, tão carnal e bem provável de que as coisas e as pessoas se ajeitam, se alargam, se comprimem para resistir aos ‘ontens’ e supor um querido e esperado amanhã.

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