Meu avô tinha muitas histórias, a vida sofrida no interior rendeu a ele muitas aventuras, e jurava que todas são verdades. Eu, que nasci com alma de escritora, adorava sentar quietinha no chão de barro vermelho na varanda da casa e, em silêncio, registrar na memória tudo que eu ouvia.
Muitas dessas histórias eram de assombração, criadas no imaginário dos moradores por medo. O que eu mais gostava é que no final delas sempre havia um desfecho real, destruindo completamente a lenda.
Talvez por isso desenvolvi algo na minha personalidade que me leva a questionar quase tudo, estou sempre tentando entender o lado lógico e claro, embora nem tudo tenha explicação eu cresci descrente de assombrações e adoro uma boa história sobre elas.
Nas minhas trilhas, tenho o privilégio de conhecer a beleza do Espírito Santo, e grande parte de Cachoeiro. Em uma dessas trilhas passei por uma casa abandonada em Burarama, não vou entrar em detalhes por respeito a família, na casa é palco de um crime triste e horroroso, razão pela qual está abandonada no alto de um morro, no meio do mato.
O guia, questionado por um trilheiro curioso contou-nos a tragédia. O trilheiro avaliou a casa com cautela e disse:
– Que pena! Uma casa tão linda e abandonada, eu entendo a dor da família, mas poderia alugar, não é!
Nesse momento surge as histórias de assombração que envolve esses lugares.
– Eles até tentaram, colocaram um caseiro, mas durante a noite eles escutam a mulher chorando, ninguém tem coragem de ficar aqui.
Me lembrei de uma das histórias de assombração do meu avô. Com muitas dificuldades foram para São João do Norte, munícipio de Alegre, ele e um irmão precisaram de um trabalho extra para ajudar nas despesas de casa. Ao chegarem no local deram a eles um local que seria sua moradia por um tempo, dois a três meses, e avisaram:
– A casa está arrumada e limpa, mas ninguém fica aqui, a empregada da fazenda vem com uma certa frequência, durante o dia, pois tem medo. Disse o fazendeiro, e continuou:
– Se vocês não quiserem ficar podem dormir no alojamento com os outros, mas lá não tem nada, é chão puro.
– Mas, o que tem de errado com a casa, me parece normal.
– É que a senhora que morava aqui morreu há uns dois anos e desde então, durante a madrugada, normalmente após a meia-noite quem está na casa escuta ela entrar pela cozinha, passar pelo corredor diante dos quartos, sair na sala e desaparecer. Isso acontece todos os dias, ninguém para na casa, várias pessoas moraram aqui desde então, mas nunca passaram de quinze dias.
Meu avô e o irmão não tinham muita opção, a vida estava difícil e teriam que enfrentar.
– Tudo bem, nós ficamos.
Primeira noite na casa e o homem tinha razão, pouco mais da meia-noite eles escutam o som da bengala da velha falecida na casa, lentamente ela entra pela cozinha, atravessa o corredor, a sala e desaparece.
Meu avô e o irmão permaneceram no mesmo quarto, dizem que não estavam com medo, mas não se arriscaram a sair. Aliás, a coragem é descrita em todas as histórias deles, eu, carrego muitas vezes a frase: “Alguns são tidos como corajosos, só porque tiveram medo de sair correndo.”
Mas, voltemos a velhinha assombrando a casa com sua bengala.
Dia seguinte e a história se repete, três dias, quatro dias e os dois começaram a bolar um plano para ver a tal velha.
Quinto dia, meu avô com a lamparina na mão e meu tio avô com a mão na porta. O combinado era que assim que ela se aproximasse da porta do quarto, que ficava no corredor, um abriria a porta e o outro sairia rapidamente com a lamparina para iluminar o rosto da assombração.
Faltavam poucos minutos para uma hora da manhã, a velhinha entrou pela porta, seguiu com sua bengala e quando estava diante do quarto, vapt, meu tio avô abriu a porta, mas a rapidez fez com que o vento apagasse o fogo, e não puderam ver a velhinha que desapareceu.
Mas, eles tinham que ver a velha, a assombração, novo plano.
– João, assim que ela começar a caminhar pelo corredor, você abre a porta lentamente, vou ficar com o isqueiro e a lamparina na mão, e assim que ela se aproximar eu acendo a lamparina e você a segura.
Tudo certo, eles não dormiram esperando a velha, passava muito da meia-noite, o sono pesava, e de repente o assoalho de madeira se torna testemunho da noite assustadora.
A velhinha caminha lentamente, o soar da bengala ecoando pelo chão se tornando cada vez mais próximo, meu tio avô abre a porta do quarto lentamente, se posiciona ao lado da porta, meu avô para no corredor com a lamparina em uma mão e o isqueiro na outra, a velha está a dois passos, meu avô risca o isqueiro, acende a vela e meu tio avô se prepara para pegar a assombração.
Nesse instante, espalha gatos para todos os lados da sala. Eles descobriram a assombração, mas não era a coitada da velhinha assombrando sua casa para que ninguém ficasse com seu bem material depois de morta, eram cinco gatos, que atravessavam a casa de madrugada indo comer restos da fazenda.
Os cincos caminhavam um atrás do outro, no assoalho de madeira fazendo um leve som com as patas, dando a imaginação das pessoas o som de bengala, que imagino eu, não se parecer nem um pouco.

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