Valéria Afonso

Bonecas negras como instrumento de luta contra o racismo e o preconceito
Anete Lacerda

Este é um projeto do jornal diaadiaes.com.br que retrata a vida de mulheres que influenciam, fazem diferença e nos inspiram a seguir em frente.

São personagens reais que estão em todos os lugares e são protagonistas de suas próprias histórias. Que contribuem para um mundo melhor.

Seja bem-vindo a mais uma  história de uma incrível mulher.

Bonecas negras como instrumento de luta contra o racismo e o preconceito

"Aprendi cedo, e ensino aos meus filhos, a darem valor ao trabalho. Falo principalmente para as meninas para elas não acreditarem em quem diga que tem coisa que é só para mulher, ou que tem outras que mulher não pode fazer. Elas podem fazer tudo".

Valéria Afonso

A artesã e agricultora familiar Valéria da Silva Adão Afonso, de 43 anos, nascida e criada na comunidade Quilombola de Monte Alegre, no Distrito de Pacotuba, em Cachoeiro de Itapemirim, é mãe de duas meninas e um menino, e parece ter sido desde sempre uma menina à frente do seu tempo.

Segundo ela, contra a vontade dos pais, começou a trabalhar na roça aos 11 anos porque achava que tinha que ter autonomia e o próprio dinheiro, para não ficar vivendo às custas do pai e da mãe.

Ela conta que percebeu, desde que se entende por gente, que a mulher precisa ter condições de pagar as próprias contas, principalmente quando casa.

Valéria destaca que ensina às filhas que não devem depender de homem, porque senão eles vão dar o dinheiro e ficar reclamando, querendo saber com o que elas vão gastar.

“Aprendi cedo, e ensino a todos, a darem valor ao trabalho. Falo principalmente para as meninas para elas não acreditarem em quem diga que tem coisa que é só para mulher, ou que tem outras que mulher não pode fazer. Elas podem fazer tudo. Eu ensino isso aos meus filhos”.

Mas ser artesã foi uma atividade que entrou por acaso na vida de Valéria Adão, num momento em que ela passava por uma depressão e foi convidada a dar aulas de artesanato para crianças na escola do filho.

Conta que não sabia muita coisa, mas se dedicou muito às aulas e o interesse das crianças a ajudou a vencer a tristeza e a doença. Depois ela fez um curso de aperfeiçoamento da Ufes e relata que não parou mais”.

Valéria Adão faz galinhas d’angola e bonecas negras, suas peças mais requisitadas e famosas, todas de cabaça (cuia), cuja matéria prima andou escassa. Mas faz também peças em bambu, madeira e cimento.

A artesã conta inclusive que já foi acusada de racista por não produzir bonecas brancas. “Nas únicas vezes em que faço bonecas só um pouquinho mais claras elas encalham. As bonecas negras representam a minha comunidade e as minhas raízes. São a minha identidade e não entendo as pessoas me acusarem de racismo nesse caso”.

Enquanto trabalha no artesanato, e os filhos não estão na escola, eles também ajudam na produção. Thalita e Larissa fazem crochê aprendido numa oficina ministrada pelas Mulheres Bordadeiras de Burarama. E Ediel ajuda nas bonecas e galinhas.

Mas quem conta um pouco mais dessa história é a própria Valéria Adão.

 

Conta um pouco mais da depressão que sofreu

Eu sofri preconceito por causa das minhas filhas serem mais claras do que eu. Elas puxaram a cor do pai. Mas isso piorou muito no terceiro filho, que era ainda mais diferente. Eles sempre perguntavam se eu era a babá e como a mãe deixava as crianças ficarem tanto tento comigo. Aquilo me entristecia. Eu me abalei e cheguei a pesar 41 quilos. Eu me sentia bem sufocada e só desabafava com meu marido e minha mãe. Era bem difícil. Mas tudo começou a mudar porque uma amiga me chamou para trabalhar na escola numa oficina quando eu estava muito mal, quase sem coragem para levantar da cama. Aceitei e comecei a lidar com muitas crianças e o peso que eu estava sentindo foi aliviando. Muito tempo depois, numas oficinas que realizavam aqui a gente foi ouvindo falar mais sobre racismo, que ninguém é melhor que a gente por causa da cor, e as pessoas orientavam a gente sobre vencer esse problema. A não aceitar porque a gente não era pior que ninguém. A gente vai crescendo e adquirindo conhecimento.

Há quanto tempo você é artesã?

Há seis anos. Eu sempre fui curiosa e tinha jeito para algumas coisas, mas fui fazer um curso da Ufes para melhorar os artesanatos que fazia. Sempre falo que as coisas não podem ser feitas de qualquer maneira. Que a gente tem que melhorar e aprender mais. Depois disso nunca mais parei.

Valéria artesã ou agricultora, a qual das duas atividades você se dedica mais?

Não tem coisa mais importante. Por incrível que pareça, amo capinar e trabalhar na “panha” de café e na roça branca, de abóbora e feijão. Reservo dois dias por semana para a lavoura. Os outros dias são para o artesanato.  Trabalho o tempo todo. Não tem sábado nem domingo. É muito gratificante. Eu me encontrei fazendo as minhas bonecas negras. E faço as galinhas e agora estou diversificando com as peças de cimento porque a matéria prima das bonecas e galinhas, as cuias, estão em falta. Uma pessoa colocou veneno e morreram muitos pés. Antes eu ganhava, hoje geralmente eu compro, mas até para comprar está difícil. Plantei uns pés e vamos ver se vai dar certo. Mas as cuias não dão em árvore. É rasteira igual abóbora, sabia? Algumas pessoas dizem que tenho que escolher ou as bonequinhas, ou as galinhas, ou mexer com madeira. Eu consigo me identificar com todos os trabalhos. Tenho energia para todos .

Seus filhos trabalham com você. Como eles começaram?

 

 

Eles foram vendo e se interessando. As meninas participaram da oficina das Bordadeiras de Burarama e hoje, quando não estão na escola, estão fazendo os tapetes e as outras peças. O Ediel me ajuda com as galinhas e as bonecas.

Qual é a sua produção mensal?

Tendo matéria prima, faço uma média de 100 peças por semana. O dinheiro que ganho não dá para ficar rica, mas ajuda a fazer coisas básicas. Inclusive estou reformando a minha casa com esse dinheiro. Eu não dependo financeiramente do meu marido, ajudo nas despesas e posso planejar alguns gastos. Meu trabalho realmente me deixou mais livre financeiramente. Nada melhor do que ser independente. Comprei inclusive uma moto.

Onde você vende suas peças?

Geralmente aqui no sul do estado, principalmente Cachoeiro. A pessoa encomenda e marco com ela num lugar para entregar. Mas já teve uma vez que veio um pessoal fazer trilha e recebi 150 pessoas aqui em casa e vendi todas as peças.

Quais são os planos para o futuro

Assim que der fazer uma casinha de sapê no fundo do quintal e levar os meus trabalhos para lá. Ter um cantinho só meu, e do meu jeito, para trabalhar. O meu pai sabe fazer casa de sapê e assim que der eu quero que ele faça para mim. E também continuar ensinando as crianças que tem que sonhar sempre. O que você quer, mas não conseguiu realizar em 2021, continua sonhando e trabalhando que em 2022 ou outro ano na frente você consegue.

Em relação ao vencer o preconceito, hoje é mais fácil para seus filhos do que foi para você?

Mais fácil pode não ser, mas elas vão estar mais preparadas do que eu.   Sei que com certeza a vida é muito mais difícil para quem é negro. Mas sempre falo para meus filhos não deixarem o preconceito afetar. Que para superar, eles precisam se gostar. Não aceitar que o tratamento seja diferente por causa da cor. Que jamais deixem as pessoas colocarem eles para baixo. Falo para não abaixarem a cabeça, acreditarem nos sonhos e seguirem em frente. Um negro da faculdade é olhado com descaso, muitas vezes. Mas ele pode estar lá. É um direito dele.

Que mensagem deixaria para os nossos leitores?

Eu diria que ninguém nunca deve abaixar a cabeça para aquilo que machuca. Estou ensinando isso aos meus filhos. Não vale mais a pena discutir sobre preconceito, mas ser tratado diferente por causa da cor não leva a lugar nenhum. Nunca acreditem no que as pessoas dizem quando querem diminuir você. Siga em frente.  Ouvir gente de preconceito vai te levar para cima de uma cama. Porque o preconceito está no dia a dia e anda com todos nós. Então tem que lidar e seguir em frente.

 

Entre Aspas
"A escrita representa o meu instrumento de luta"
Marilene Depes
Escritora e Gerontóloga
'O importante da vida é agora. O ontem já foi e o futuro é incerto."
Maria das Graças Fernandes Kotasek
Sargento da PMES
"Ser mulher e artista é saber que não sera fácil, mas entender que é a ferramenta para a luta contra o patriarcado."
Amanda Malta
Atriz e Professora de Teatro
"Mulher é sinônimo de sabedoria, de coragem, de força e de amor. Ela edifica a casa, ela é o que quer ser."
Fabiana Bravo
Bióloga, professora e funcionária pública
“Mais que realizada profissionalmente, eu vejo que a minha profissão é tão prazerosa de ser exercida e que gera um impacto tão positivo que se tornou algo que vai além de um trabalho, mas um estilo de vida que eu escolhi seguir.”
Karina Peixoto
Coordenadora de Marketing do HIFA
"A morte da mulher frente aos seus ideais não se trata de um suicídio dos desejos. O império patriarcal machista e opressor é o algoz que lhes corta a cabeça."
Thatiane Cardoso
Escritora, Produtora Cultural e graduanda em Letras
“Fazer a diferença é o que me move. E hoje eu tenho a certeza de que por meio da minha atuação profissional eu gero impacto social positivo na sociedade em que estou inserida.”
Tayla Oliveira
Assessora de Comunicação e Relacionamento do HIFA
"Sou alguém que busca evoluir a cada dia, sempre pensando de forma coletiva. Precisamos sempre uns dos outros."
Bárbara Gaspari
Jornalista e vice-presidente do Mova-se
"Que nada nos limite. Que nada nos defina. Que nada nos sujeite. Que a liberdade seja nossa própria substância."
Simone de Beauvoir
Escritora
"A arte de ser mulher através dos tempos escreve histórias diárias de coragem e luta."
Denise Vieira
Jornalista
Previous
Next