seg 15/abril/2024 • 06h55
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Anete Lacerda

Este é um projeto do jornal diaadiaes.com.br que retrata a vida de mulheres que influenciam, fazem diferença e nos inspiram a seguir em frente.

São personagens reais que estão em todos os lugares e são protagonistas de suas próprias histórias. Que contribuem para um mundo melhor.

Seja bem-vindo a mais uma  história de uma incrível mulher.

Adelmira Ventura

Dona Adelmira, a vovó corredora de 96 anos

A nossa Brava Mulher de hoje é a flamenguista Adelmira Ventura Adão, 96 anos, mais conhecida como vovó corredora, uma atleta de humor admirável e cabelos lindamente brancos como a neve, que cresceu trabalhando duro no campo e na cidade.

"Corrida para mim é liberdade."

A nossa Brava Mulher de hoje é a flamenguista Adelmira Ventura Adão, 96 anos, mais conhecida como vovó corredora, uma atleta de humor admirável e cabelos lindamente brancos como a neve, que cresceu trabalhando duro no campo e na cidade.

Ela pode não ser a atleta com mais tempo de corrida no Espírito Santo, pois começou a praticar a atividade há cerca de 15 anos (ela não lembra o ano exato), mas é quase certo que seja a mais idosa corredora em atividade do Estado, talvez do país.

Já recebeu várias homenagens e títulos, entre eles, a Comenda Newton Braga, a maior honraria concedida pelo município de Cachoeiro de Itapemirim.

Em 2009 foi a melhor atleta do Estado na sua sua categoria e se classificou para a etapa nacional da competição, mas não quis participar da disputa, entre outros motivos, porque não anda de avião.

Adelmira Adão nasceu na Comunidade Quilombola de Monte Alegre, em Cachoeiro. Na roça fez de tudo um pouco. Roçou, capinou, virou barro para plantar arroz, plantou e colheu café.

Aos 16 anos se mudou para a sede do município e começou a trabalhar como empregada doméstica, profissão na qual aposentou.

A vovó corredora é presença constante nas corridas em várias regiões do Estado, mas nunca participou da corrida de São Silvestre, em São Paulo, porque, como já dissemos, se recusa a andar de avião.

Segundo o neto, o vigilante David Adão, 42 anos,  que mora com ela e a acompanha em todas as disputas, seria muito cansativo percorrer todo o trajeto de carro.

Entende também que se ela buscasse patrocínio e recebesse a orientação de profissionais poderia competir em pé de igualdade com outros atletas de alta performance.

Mas ela se recusa a pedir patrocínio. “Correr para mim é liberdade e se alguém me der dinheiro vai querer me mandar ”, pontua a vovó.

Segundo  ela, com patrocínio, se algum dia não quisesse ou não pudesse treinar, seria ruim. “Eles vão me chamar a atenção e não gosto disso. Tenho muita vergonha. Pago tudo com meu dinheirinho mesmo”, destacou.

Quanto a estar sempre em movimento, foi rotina da vida toda. Conta que quando trabalhava descia correndo do bairro Zumbi, onde mora até hoje, até o seu trabalho perto do mercado da Pedra, para não chegar atrasada.

As corridas como competição entraram na sua vida por acaso. Ela não lembra o ano exato em que começou a correr, mas arrisca dizer que tem mais de 15 anos. Já participou inclusive de duas corridas no mesmo dia.

“Eu fui participar de uma caminhada dos idosos numa corrida de São Pedro, na Festa de Cachoeiro. Demorou a começar e eu ansiosa. De repente vi aquele monte de gente correndo e corri junto com eles”, relata.

Dona Adelmira conta que todos, inclusive a neta que a acompanhava, começaram a gritar para que parasse e voltasse ao ponto de partida. A neta inclusive chorava de desespero.

“Chamaram, gritaram, mas não parei. Continuei. Pensei que iam voltar logo, mas que nada. Passaram pela Ponte do Arco, que nem conhecia, foram pelo Ultramar e passaram por um monte de lugar até voltar para a Praça Jerônimo Monteiro”, detalha.

Em nossa entrevista vamos conhecer um pouco mais dessa mulher que sai de casa para treinar às cinco horas da manhã, três vezes por semana, e que diz que já se acostumou a ser chamada de doida por isso.

A exceção é quando gripa, como aconteceu recentemente, e as corridas são suspensas por um período. Ela não dorme de dia e além de cozinhar, lava, passa, cozinha e cuida das muitas plantas que tem no quintal de casa. E come de tudo. “De tudo mesmo. Mas pouco”, frisa.

A nossa entrevista foi na sala de sua casa, onde existem espaços especiais para seus muitos troféus e medalhas. Segundo o neto, já pensou em fazer um perfil no Instagram (ela tem o @vovocorredora) mostrando a rotina da avó, mas encontrou dois obstáculos.

O primeiro é a sua escala de trabalho, que é de 24 horas, e o segundo é o fato da avó não gostar dessa obrigação de fazer as coisas. Ela mantém muito bem a rotina, mas não gosta de novidades, valoriza muito a liberdade que tem. Então ele desistiu.

Vamos ouvir o que essa mulher quase centenária, falante, de muito vigor, alegria e disposição, nos diz. Duas coisas ficaram bem claras durante a nossa entrevista. Ela tem muita fé e acredita que Deus é seu eterno companheiro. E ficar parada não é, nem nunca foi, uma opção.

 

A senhora alguma vez pensou em ser atleta?

Eu não. A corrida  na minha vida foi por acaso mesmo. Mas eu sempre andei a pé. Até hoje não gosto de pegar ônibus. Então eu descia correndo aqui do Zumbi para ir trabalhar perto  do Mercado da Pedra. Nunca gostei que as patroas me chamassem a atenção porque se isso acontecesse eu ia chorar.  E por isso não me atrasava na hora de entrar. Sempre foi assim. Chegava cedo. E no trabalho a gente corre para baixo e para cima o dia todo. Então sempre fui forte.

 

Conta um pouco sobre a sua primeira corrida

Eu ia participar da caminhada dos idosos que ia começar às 8h. Atrasou e eu reclamando. “Como é que é pessoal. Essa corrida não vai sair não? O sol está esquentando.” Eu esticava a minha perna, me movimentava e reclamava, e as outras idosas falando que eu estava ficando doida. Nem liguei porque não sou doida. A minha neta estava comigo. Atrasou bastante, mas a corrida começou primeiro e eu saí correndo junto. Só ouvia a minha neta e as outras idosas gritando “D. Delmira, volta, volta”. Minha neta chorava pedindo para eu voltar. Que volta que nada. Continuei correndo. Mas eu não sabia que ia passar pela Consolação, pelo Grêmio de Santo Agostinho, pela Ponte da Ilha e foi embora. Passamos pelo Tiro de Guerra (eu pensava: meninos parem com essa zoada na minha cabeça). Achei que ia entrar pela Ponte Municipal, e nada. Continuaram correndo e passamos pela Ponte do Arco, que eu nem conhecia. Depois fomos pelo Nildo Ultramar e voltamos para a Praça Jerônimo Monteiro. Eu cheguei e todos estavam gritando o meu nome, batendo palmas e eu fiquei cismada porque não sabia o que era aquilo. Naquele tempo não era palanque. Era um caminhão pau de arara. Ferveu de gente, me colocaram em cima do caminhão. Eu ganhei a medalha e depois ganhei também um troféu. Aí fiquei pensando se aquilo era meu mesmo, será que eu tinha ganhado aqueles prêmios. Ou se era uma brincadeira. Fiquei tão feliz na minha vida. Pensando no que São Pedro tinha feito comigo. Dizia o tempo todo que aquilo só podia ser obra de São Pedro. Eu lembrava das muitas pessoas que tinham ficado para trás ou desistido da corrida e que eu tinha conseguido chegar.

 

Por que a senhora nunca buscou patrocínio?

Porque se eu não puder ir vão falar que estão pagando e eu não apareço. Nunca gostei que me chamassem a atenção. Então eu não deixo ninguém pedir patrocínio e não quero porque não quero ser mandada. A gente tem que ter responsabilidade. Eu pago com o dinheirinho que Deus me deu, mas não quero que ninguém me ajude não. Corrida para mim é liberdade e ter patrocinador tiraria isso de mim. Eu sei da minha obrigação. Se alguém quiser me dar presente eu aceito. Mas uma madame aí me prometeu um tênis para eu dar uma entrevista. E ele não chegou até ontem. Pode ser que chegue hoje. Briguei com o David porque não gosto dessas coisas, me dá sofrimento esse negócio de entrevista. Ocupei meu tempo. A palavra dela foi boa, mas não gostei porque me fez de palhaça. Dessa vez dei entrevista porque sei que é mais fácil porque o Sandro (Alessandro de Paula) foi o primeiro que veio aqui.

 

Como é a sua rotina de treinos?

Eu saio 5h para caminhar e correr. Tem gente que vê e me manda ficar deitada. Pergunta se estou ficando doida. E eu respondo que não estou doida é nada. E que caminhar de manhã é muito bom, não é doideira. Com todo aquele sereno que Deus manda a gente fica feliz. Quando as pessoas passam e desejam bom dia eu retribuo e desejo um bom trabalho e sigo em frente. É muito bom. Algumas vizinhas combinam de caminhar, mas desistem. Eu passo lá e chamo, mas estão dormindo, aí vou com Deus. Ninguém quer levantar cedo. Falar em levantar cedo é o mesmo que matar algumas pessoas. Aí ficam me chamando de doida. Mania de me chamar de doida. Durante o treino e quando chego em casa parece que estou nascendo de novo. É muito bom. Só parei uns dias porque peguei uma gripe e não fiquei bem. Mas já vou voltar à rotina.

 

O seu médico mandou a senhora parar de correr. Vai obedecer?

Eu não. Pedi para ele não fazer isso comigo. No dia seguinte eu tinha uma corrida. Mas no outro dia eu fui na Maria Eugênia (geriatra) e ela falou que não era para eu parar porque senão eu ia ficar entrevada. Que era para eu andar ou correr. E tem dia que estou desanimada e peço a Deus para me animar porque é tão bom sair, caminhar, correr, encontrar as pessoas. Eu fui obrigada a parar três meses no tempo da pandemia e foi muito ruim. Depois usava máscara, mas era muito ruim, sufocava a gente. Mas estou feliz da minha vida. Graças a Deus não peguei essa doença.

 

Como é a sua alimentação?

Eu como de tudo. De tudo mesmo. Só não como muito. Como bem pouquinho. Quando vou correr todo mundo me pergunta isso. Eles me chamam de vovó, são tantos netos que surgem por ai, e digo sempre a mesma coisa. Não evito nada. E tomo minha cervejinha bem gelada de vez em quando. Isso não mata ninguém não. É alegria. Quando estou com vontade peço ao David para comprar para mim e ele vai, mesmo sendo crente. Não é ele que vai beber. Boto no meu copo geladinho e bebo. É uma delícia. Mas não tenho vício de bebida. Quando  vou no médico ele diz que posso beber cerveja mas que não devo ficar comendo os salgadinhos.

 

E na véspera  das corridas, muda alguma coisa?

Mudo não. Na véspera faço tudo que tenho direito. No dia levanto, faço meu café, como um pedacinho de pão, uma banana, bebo minha água e saio. Na volta, o David chama para orar e agradecer, oramos, tiro a roupa para lavar, tomo meu banho e vou comer. Mas tem uma coisa ruim. Fico muito ansiosa com medo de perder a hora, de não fazer uma boa corrida. É uma doideira. Mas é muito bom correr porque a vida passa e precisamos aproveitar.

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