seg 8/agosto/2022 15:55
Foto: Redes Sociais

Clube do Livro – Lygia quer saber se você se esqueceu dos anos de chumbo

Clube do Livro – Lygia quer saber se você se esqueceu dos anos de chumbo
Olivia Batista de Avelar

Qual a voz que ressoa dentro da sua cabeça quando você está lendo um livro? Cada personagem ganha uma entonação e um timbre próprios? Todas as pessoas que aparecem na história se comunicam da mesma forma? Usam a garganta de conhecidos seus para se expressarem, pegando emprestado suas vozes e seus trejeitos característicos? Você imagina como seria a voz do autor, narrando o próprio livro? A autora grita em seu ouvido quando acelera a escrita e você começa a ler as linhas mais rapidamente ao ponto de não terminar o som de cada palavra em separado e todas elas se juntarem em um uníssono frasal que não te permite tempo para respirar e espaço para piscar os olhos?

Quem conduz essa melodia silenciosa chamada livro, quando ela toca feito uma orquestra de palavras dentro da sua leitura, e faz reverberar os ecos das suas próprias lembranças misturadas às páginas escritas ao ponto delas se tornarem indissociáveis?

A voz do autor não é a voz na sua cabeça. As palavras são como os desenhos aéreos rabiscados por um maestro que rege uma sinfonia: sem as cordas, madeiras, metais e percussão não há música. A partitura não é a música porque ela, sozinha, não emite som, mas aqueles que sabem lê-la ouvem as notas mentalmente e em silêncio. O livro não é a literatura porque quando ele não está sendo lido as palavras estão mudas , são apenas rabiscos ininteligíveis sobre o papel. O maestro, assim como o autor, rege, sinaliza, aponta, pausa, tenciona, ameniza, mas sinfonia e leitura não são sem que junto a elas, também, sejamos nós: a concha acústica de nossos ouvidos e a caixa ressonante cuja abertura é através do olhar/leitura e cujo eco se dá no encontro com nossas emoções e memórias. Os sons que emitimos com nosso aparelho fonador e que são representados por linhas e desenhos – que chamamos letras e agrupamos em palavras – ganham sentido quando viram as frases e viram histórias quando são narrados: só existem porque nós os estamos fazendo existir.

As meninas é um livro de Lygia Fagundes Telles escrito em técnica literária chamada de fluxo de consciência: o que lemos não são as descrições dos atos, são os pensamentos das personagens. Em muitas passagens, se torna absolutamente insuportável estar dentro da cabeça de outra pessoa. Os traumas assombrados de Ana Clara nos perturbam, porque durante muitos parágrafos eles são nossos traumas. Os devaneios e frivolidades de Lorena se tornam cansativos e nos perguntamos: estou sendo arrogante quando me considero generosa e prestativa? Me sinto melhor do que os outros quando tenho pena de alguém? As ideologias de Lia parecem discursos prontos e pueris quando encontram as nossas próprias convicções e percebemos que elas escondem cada inabilidade e insensibilidade que temos de encarar e lidar com a vida como ela é e nos agarramos ao mundo como nós gostaríamos que ele fosse. Três meninas e uma escritora que vem fazer da cabeça do leitor seu quarto de pensão lotado: Ana, Lia, Lorena, Lygia e eu – dividindo um mesmo espaço, um mesmo tempo tumultuado, uma mesma voz mental que não é de nenhuma delas – que é só minha e que eu empresto a todas, para que se façam vivas enquanto durarem as páginas dessa história.

Depois de incorporar tantas mulheres dentro de nós, depois de compartilharmos com elas seus sentimentos mais íntimos, suas lembranças mais dolorosas, suas humilhações e medos, aquilo que fingem e que invejam, aquilo que não admitem e tudo o que querem fazer parecer que é mesmo não sendo – há ainda a consciência primeira, regente, condutora, matriz. Lançado em 1973 – período marcado pelos anos de terror da ditadura militar no Brasil -, foi nas páginas desse livro que Lygia colocou, através da voz da personagem Lia, a descrição aterradora de tortura sofrida por um homem preso e seviciado por agentes do estado. Ela foi a primeira a publicar um relato verdadeiro de violência perpetrada pelos militares, driblando a censura duramente imposta sobre todas as publicações, durante aquele período. Lygia Fagundes Telles morreu em três de abril desse ano e sua consciência agora vive, somente, através das personagens que ela fez nascer, das páginas que escreveu e do quanto ela acreditava em tudo aquilo que se imortalizou através da sua literatura.

Os livros simplesmente não existem, para nós, quando não sabemos ler. Porém, uma vez cruzada a linha do analfabetismo, existe, ainda, outra linha que muitas pessoas não conseguem transpor, mesmo sabendo juntar as letras e ler as frases: a distinção entre ficção e realidade, a negação dos fatos que deforma a imaginação e a deteriora em ilusão.

A consciência de Lygia – e de suas meninas – está em paz. Depois de fechado o livro, é somente a nós mesmos a quem devemos prestar contas. Quando todas as vozes se calam, só resta uma voz dentro da nossa cabeça e se ela grita mentiras porque nos incomoda a verdade, só cabe a cada um de nós escolher de que forma é mais fácil cooperar para conseguir viver. Viva Lygia, hoje e sempre que sua presença e sua consciência forem tão necessárias e urgentes, como são no Brasil de 2022.

 

Olivia Batista de Avelar. Professora de inglês, pós graduada em filosofia, apaixonada por cinema e escritora
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