Das águas que passam

Das águas que passam

Começamos essa semana sob o céu sem lua. A lua oculta. A última lua que se transforma em primeira. Em poucos dias, ela vai voltando a crescer no céu – noite após noite – até engordar inteira e cheia, refletindo toda e alta, nas águas aqui embaixo. Seguimos seu rastro, e, tão certo como o sol nasce, todos os dias, a lua vai minguar novamente: escorrendo e pingando, chorando em cima da maré morta. Até que, de novo e de nova, ela some do céu e puxa as águas pra cima, o ciclo de 28 dias do céu noturno, dançando sobre as nossas cabeças, enquanto dormimos.

A lua, o sol, as marés altas, as marés baixas. A natureza, que já foi uma força opressora para o homem antigo, hoje, pode ser nosso refúgio de estabilidade cíclica e serenidade.

É a sociedade, são os rumos políticos, são as notícias sobre desgraças, é a doença: são esses que não controlamos, que nos impõe medo, cansaço, desgaste, ansiedade e frustração. Mas as águas dos rios correm, invariavelmente, para o mar. Independentemente da nossa vontade, mas antes constantes e perenes. E, enquanto aguardamos os desdobramentos das tempestades sociais que nós mesmos criamos, podemos contar com a lição das águas: isso passa.

Assisti de novo, recentemente, o filme Das águas que passam, curta metragem lançado em 2016 e dirigido pelo linharense Diego Zon. Quando conheci o filme, me tocou a realidade deste ter se tornado um documento histórico: filmado na linda vila de Regência, em Linhares, pouco tempo depois das gravações do filme, o local foi um mais atingidos pelo rompimento da barragem da Samarco, tragédia ambiental que aconteceu em 2015 e que inundou o Rio Doce com rejeitos de minério.

Agora, ao assistir novamente, em um momento em que me sinto impotente e desesperançosa, as imagens na tela conversam comigo de uma outra forma: em um silêncio de alento natural e fluido, enquanto a cadência e a certeza sobre os ritmos da natureza reforçam a minha trivialidade em face da sua imensidão. Se vivemos, atualmente, em um uma ilusão absurda de controle sobre a realidade e os rumos da vida, são as magnas marés quem nos colocam em nosso devido lugar – e eu aceito.

O motor do pequeno barco de pesca ressoa durante o filme e, sem perceber, comecei a respirar mais fundo, tentando amenizar a minha ansiedade e diminuir as batidas aceleradas do meu coração. No mar e na vida, tudo tem seu tempo. É tanta água e tanto céu que não me esquivo de uma divagação: porque me desesperar? Os movimentos da câmera abrem meus olhos, um plano tão mais largo – e depois dessa praia, depois desse mar e mais mar, depois de puro azul e aberto céu – ainda existe mais espaço aberto. Apesar dos dias pesados e de tudo que estamos vivendo parecer não ter fim, a lua seguirá seu círculo e continuará puxando e empurrando as águas, que continuarão assoprando e torcendo os ventos: precisamos e podemos respirar.

Em entrevista recente para a Organização Cinelimite, o diretor do filme diz: “Procurei captar uma experiência de espaço que está sempre ligada ao tempo. Tanto o tempo do lugar quanto o tempo das vidas das pessoas que vivem nele. Foi então que tive a motivação de desenvolver um filme sobre a relação de alguém com a água, tendo a figura de um pescador como elo de ligação a este mundo desconhecido.” E foi exatamente dessa forma que assisti ao filme: embarcando em um mundo onde eu não precisava procurar e esperar por respostas. Já existem tantas e nenhuma nos serve ou, verdadeiramente, nos contempla. A cacofonia de vozes – na TV, na internet, nas ruas – já cansaram os nossos ouvidos e encheram as nossas cabeças. Qual o resultado? Olhando o mar, cercada de mar por todos os lados, os 23 minutos de filme nos convidam a soltar o leme e confiar nos rumos das águas e na infalibilidade do tempo.

Os homens? Eles passam. Os governos? Esses caem, e são substituídos por outros, tal e qual: diferentes, porém iguais.

A tristeza, a revolta e o profundo cansaço – esses lavamos com água, deixamos que se derretam e que se reincorporem ao rito das chuvas que caem e do vapor que sobe. O que virá, depois de superada a pandemia, de enterrados os mortos, de apontados os responsáveis: mais vida, para o bem e para o mal. Porém, uma coisa é certa: continuarão a correr as águas, a girar a lua e a nascer o sol. E é essa a beleza encantada do nos colocarmos, mesmo que por poucos e raros momentos, em nossos devidos e pequenos lugares dentro de um tão vasto mundo. O ser humano natural e orgânico se rebela sem palavras quando olha dentro de cada pequena gota de água e suspeita: a vida não é linha reta. Vivamos os ciclos que passam por nós: eles nos encharcam e depois nos secam. E, no enquanto, que a maré mais baixa nos prepare para as ondas mais altas. Uma dentro da outra, assim como o futuro que já está dentro desse sufocado agora. Seguimos.


O filme Das águas que passam está em cartaz no Cinelimite. Assista clicando aqui

Olivia Batista de Avelar. Professora de Inglês, pós graduada em Filosofia, apaixonada por Tarot e Astrologia e Escritora

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