Filme A ganha-pão e as mulheres do Afeganistão

Filme A ganha-pão e as mulheres do Afeganistão

Desde que o Talibã assumiu o Afeganistão, Parvana, de 11 anos, raramente fica ao ar livre. Proibida de ir à escola, fazer compras no mercado ou até mesmo brincar nas ruas de Cabul, a heroína da animação A ganha-pão – disponível na Netflix – está presa na casa de um cômodo de sua família. Quando o Talibã leva embora seu pai, Parvana percebe que cabe a ela se tornar o “ganha-pão” da família e assim, começa a se disfarçar de menino para sustentar sua mãe, duas irmãs e irmão mais novo. O filme, lançado em 2017, é situado nos anos do primeiro regime do Talibã sobre o Afeganistão – que aconteceu entre os anos de 1996 e 2001. Contando sobre o passado de domínio do terror sobre o país, essa história, infelizmente, agora relata também o futuro das meninas afegãs. No último dia 15 de agosto, o grupo tomou a cidade de Cabul – capital do Afeganistão – depois de meses de avanço e domínio sobre cidades e pontos estratégicos por todo o país. Há 20 anos, o grupo havia sido expulso da capital por uma coalizão liderada pelos Estados Unidos. Retornam, agora, com maior poder bélico e político e seu governo pretende destruir 20 anos de lutas e conquistas de direitos das mulheres afegãs. Nesse exato momento, quantas pequenas Parvanas se escondem, passam fome e sofrem, sozinhas, por todas as cidades do Afeganistão?

Parvana é uma personagem do livro que deu origem ao filme, da autora Deborah Ellis, mas podemos encontrar Parvana na ativista paquistanesa Malala Yousafzai que, na tarde de nove de outubro de 2012 – quando estava numa van escolar na província de Khyber Pakhtunkhwa – foi alvo de um atirador do Talibã que apontou-lhe uma pistola e disparou três tiros. Malala não aceitava o fato de meninas não poderem estudar e escrevia um blog, na internet, sobre a ocupação do Talibã no Paquistão. Foi sua luta pelo direito de estudar que fez dela um alvo e, durante o verão de 2012, integrantes do grupo extremista se reuniram e concordaram, por unanimidade, em matar Malala. Sua história chocou o mundo e, depois de se recuperar da tentativa de assassinato, ela ganhou projeção mundial e se tornou conhecida por denunciar e lutar contra a barbárie a que são submetidas as mulheres que vivem sob a Sharia – sistema de leis islâmicas interpretadas de maneira extremista e impingida aos habitantes dos locais onde o Talibã ascende ao poder.

Desde o último dia 15, as imagens do Afeganistão que percorrem o mundo já avisam sobre mais uma era de obscurantismo e terror que se inicia: cidadãos se agarram aos aviões que partem do aeroporto de Cabul, na tentativa de deixar o país o mais rápido possível.

Mulheres, obrigadas a vestirem novamente as burcas que só deixam à mostra seus olhos, protestam corajosamente pelas ruas da cidade. Famílias entregam seus filhos aos militares, na esperança que sejam levados para outro país e cresçam longe do alcance dos membros do Talibã. Pessoas se arriscam a fugir a pé, passando por estradas já ocupadas pelos extremistas, na tentativa de receberem asilo político em países próximos.

Toda a população está sob a mira dos fuzis, da fé violenta e de um governo de ódio e ausência de direitos civis, mas a situação das mulheres é ainda mais aterradora. “Nunca se esqueça que basta uma crise política, econômica ou religiosa para que os direitos das mulheres sejam questionados. Esses direitos não são permanentes. Você terá que manter-se vigilante durante toda a sua vida.” Disse a escritora e filósofa francesa Simone de Beauvoir – as mulheres afegãs permanecem atentas, enquanto observam seus direitos humanos e civis serem solapados, um por um, por um grupo de homens armados, amparados politica e economicamente por vários líderes mundiais. E não só elas: as mulheres de todo o mundo assistem ao terror que se instaura no Afeganistão. Ou pelo menos deveriam. A frase de Simone de Beauvoir não se refere somente às mulheres muçulmanas, ou às mulheres africanas, ou pobres, ou judias, ou pretas, ou indígenas. A frase é absurdamente abrangente e é essa característica que a torna tão verdadeira quanto avassaladora.

“Basta uma crise política, econômica ou religiosa para que os direitos das mulheres sejam questionados.” Os direitos de todas as mulheres, em qualquer lugar do mundo. E a condição para tal é uma crise política, econômica ou religiosa: dessas que acontecem todos os dias, o tempo todo, quase a cada hora.

As mulheres afegãs tem diplomas, assim como nós. Tem dinheiro, bens, família, filhos, carreira, doenças, sonhos, cólicas menstruais, crises conjugais, vontade de viajar, de mudar de casa, de comprar roupas, de ir ao salão de beleza, de fazer compras, de ver filmes, de ouvir música, de ler, de chorar, de dançar, de casar com quem escolherem, de terem amigas, de tomarem remédios, de respirarem. E elas estão, nesse exato momento, perdendo tudo que são, tudo que tem, toda a sua existência por causa de uma crise política – dessas que acontecem em todos os lugares, todos os dias. Por isso, é preciso olhar para as mulheres afegãs e para seu imensurável sofrimento e nunca, nem por um momento, esquecer que basta uma crise – qualquer uma – para que os direitos das mulheres sejam questionados. Repito, os direitos de todas as mulheres.

O que sempre nos separa de qualquer mulher em vias de ser anulada, apagada, aviltada e violentada unicamente pelo fato de ser mulher, em qualquer lugar do mundo, não é uma questão de geografia – é uma questão de tempo. O que fazem com a pequena Parvana é inaceitável, ultrajante e aterrador – e sua condição é, triste e infelizmente, universal.

 

Olivia Batista de Avelar. Professora de inglês, pós graduada em filosofia, apaixonada por cinema e escritora

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