Filme A Vila – sobre o medo e a morte

Filme A Vila – sobre o medo e a morte
Filme A Vila – sobre o medo e a morte
Olivia Batista de Avelar

Durante o correr do século 20, a comemoração do dia de Halloween – uma tradicional festa norte-americana que surgiu nas Ilhas Britânicas e é reproduzida em diferentes países, inclusive no Brasil – se diluiu completamente até se transformar, unicamente, em uma data comercial.

Muitas outras festividades, de diferentes culturas, também passaram pelo mesmo processo de serem incorporadas ao modo pós-moderno de vida, que é indissociável da evolução do capitalismo, e de serem esvaziadas de suas origens até quase esquecermos, completamente, o que elas significavam nos séculos passados.

Os historiadores apontam que a provável origem do Halloween tenha sido um festival praticado pelos celtas chamado Samhain. O Samhain também tinha um significado místico, uma vez que os celtas acreditavam que, durante o festival – que acontecia anualmente em 1º de novembro –, as barreiras que separavam o mundo dos mortos e o mundo dos vivos deixavam de existir. Com isso, acreditava-se que as almas dos mortos do último ano poderiam vagar pela Terra. O que, hoje em dia, não passa de festas com crianças e jovens vestindo fantasias de seus personagens favoritos e comendo doces em formato de abóboras e aranhas já foi, em algum período longínquo da história do mundo, um festival sagrado dedicado aos mortos e ao entendimento que construímos sobre o que nos separa e o que nos aproxima deles.

O Filme A Vila – 2004, disponível no Prime – não é um filme que pode ser enquadrado exatamente na categoria terror. Digo isso porque, às vésperas do dia 31 de outubro, na maioria das vezes, encontramos uma enorme quantidade de sugestões e listas de filmes desse gênero assombrando a internet e as redes sociais. Apesar de amar cinema, admito que filmes de terror e suspense não me agradam – às vezes, porque as histórias me parecem desinteressantes e, em outros momentos, porque não me sinto confortável ao me expor, voluntariamente, ao medo. E é justamente sobre isso que trata o filme: como a humanidade lida com o medo.

A Vila conta a história de uma pequena comunidade rural, do século 19, onde vivem, pacata e cordialmente, algumas poucas famílias de trabalhadores rurais.

A organização, proteção e decisões da vila são feitas por um grupo de anciãos que deliberam tanto sobre as pequenas funções cotidianas relacionadas às colheitas, aos ritos religiosos e as questões familiares e sociais, quanto sobre as leis e aos limites impostos aos cidadãos do lugarejo. Cercada por uma floresta, a vila se localiza em uma clareira aonde só é possível chegar e sair passando pelas árvores, rochas e montanhas. De acordo com os anciãos, criaturas malignas vivem nessa floresta e não permitem que os moradores andem por ela livremente – e essa é a maior de todas as leis locais: não entre na floresta. Permaneça seguro em nosso vale. As criaturas não invadirão nossa vila se respeitarmos e nos mantermos longe de sua floresta.

A história contada pelo diretor M. Night Shyamalan tem, com certeza, muitos contornos que nos remetem aos contos de fadas. E, assim como aconteceu com os contos de fadas originais, que são histórias sobre estupros, assassinatos, violência, e dor e que acabaram sendo transformados em filmes estrelados por princesas cantantes que vendem muitos brinquedos e cacarecos – assim como os contos clássicos e trágicos se transformaram em lucrativas animações infantis, também o antigo festival de Samhain dedicado aos mortos e à percepção da nossa finitude e incapacidade de alcançar o que nos esperará do outro lado do véu se transformou em crianças usando chapéu de bruxa e enfeites caros e descartáveis que fazem dessa uma das datas mais lucrativas do ano, em muitos países.

Para mim, o filme A Vila conta – sem sustos desnecessários, sem monstros sangrentos e sem os clichês do cinema e do terror – uma história sobre o que mais assusta, desde os tempos imemoriais, todos os seres humanos: temos medo da morte. Temos medo da morte porque tememos o que não entendemos e porque sabemos que, certamente, nunca vamos conseguir entender. Temos medo da violência porque ela nos mata e mata aqueles que amamos.

Temos medo da morte porque não temos certeza alguma sobre o que nos espera depois dela e se existe, realmente, algo do lado de lá.

Enquanto nos entretemos com princesas coloridas, enquanto dançamos em festas cheias de caldeirões borbulhantes e comidas exageradamente doces, enquanto a sociedade segue abandonando – em nome do lucro e da diversão sem fim – todos os rituais e todas as histórias que foram criados para nos consolar e nos fazer reverentes e contemplativos do nosso destino mais certo, enquanto esvaziamos o sentido de tudo a vida vai passando. Porém, uma vida sem elaboração e construção de sentido e que tenta ignorar a relevância e a presença da morte dentro da vida ainda é uma vida regida e dominada pelo medo. Não é porque as histórias são mais coloridas ou porque as festas à fantasia são animadas que o medo não esteja, ainda, pulsando dentro de nós. O esvaziamento de sentido que produzimos não diminui ou ressignifica nossos medos ancestrais, apenas desvela quanto e como estamos perdendo a coragem e os meios de olharmos e lidarmos com ele.

 

Olivia Batista de Avelar. Professora de inglês, pós graduada em filosofia, apaixonada por cinema e escritora
Ultimas Notícias
Ultimas Notícias