Filme: Não olhe para cima – e a nossa gigantesca irrelevância

Filme: Não olhe para cima – e a nossa gigantesca irrelevância
Olivia Batista de Avelar

Vou começar essa coluna – escrita nos últimos momentos de 2021 e que será publicada nos primeiros dias de 2022 – partindo de algumas das imagens e dos pensamentos que tive enquanto assistia ao filme Não Olhe para cima – 2021, disponível na Netflix. É possível que, em um primeiro momento, essas relações que construí sozinha e sem organização ou intuito de usá-las como referência para esse texto possam parecer um tanto desconexas e irrelevantes para conversamos sobre esse filme. Talvez. Mas vamos juntos seguindo por esse início despretensioso e bastante caótico e podemos ver aonde essas lembranças e indagações podem nos levar. Assisti ao filme no dia 25 de dezembro – somente um dia após o filme entrar para o catálogo da plataforma de streaming e duas semanas depois de ter estreado nos cinemas. Mesmo tendo “demorado” tão pouco tempo para ver o filme, eu já tinha lido, na internet – quase que 100% das vezes sem querer -, uma verdadeira enxurrada de opiniões e críticas e comparações e ataques e defesas da obra, do diretor, do roteiro e dos atores.

Desde que vi anúncios da estreia, fiquei bastante curiosa e com muita vontade de assistir ao meu primeiro filme desse diretor, mas admito que, minutos antes do filme começar, eu já me sentia cansada por antecipação e atropelada pela repercussão da história que eu ainda nem conhecia.

Das associações que me vieram à mente, já nos primeiros minutos de filme, a primeira é, acredito eu, bastante óbvia: me lembrei – como que em cascata – dos muitos filmes sobre catástrofes que já assisti, durante a vida. ETs, meteoros, ondas gigantes, explosões, zumbis e cataclismas de todos os tipos são bastante comuns no cinema; precisamos admitir que nós, a humanidade – em muitos períodos da nossa breve história sobre a terra – precisamos encontrar sentido para nossa passagem por aqui, tanto para a nossa estada individual, quanto para nossa jornada coletiva. Buscamos entender, ou melhor, precisamos entender de onde viemos e para onde estamos indo e, quando vislumbramos um fim – mesmo que ele seja catastrófico – a sensação de percebermos um objetivo, um norte, uma pista sobre em qual altura da nossa caminhada estamos e para onde estamos indo acaba por nos dar de presente um alívio e uma organização. Começo, meio e fim, por mais que nos amedronte um final violento, nos oferecem um sentido, uma sensação falsa, porém reconfortante, de que a vida sobre a terra segue alguma lógica, que tem alguma direção.

A vida que veio não se sabe de onde e que se estenderá, cíclica e indefinidamente, após a nossa morte, nos esmaga por deixar sobre nós a indesejada e incômoda marca da irrelevância. Tristemente, começo, meio e fim são recursos e noções que só existem dentro de nós.

O que todos os filmes catástrofe têm em comum e que não vamos encontrar em Não olhe para cima? O desespero imediato. A instantânea convulsão social. Os minutos após o anúncio público de uma tragédia iminente que gera pânico generalizado, filas de carros nas ruas, crianças chorando perdidas dos pais, buzinas e alarmes tocando irritantemente e conferindo ainda mais angústia ao caos.

Não olhe para cima apresenta dois cientistas que fazem uma descoberta aterradora – daqui a seis meses, um meteoro vai se chocar com a Terra e destruí-la completamente. O que vem em seguida – durante todo o filme – é um longo e enervante anticlímax que parece irreconciliável com um filme desse estilo: ninguém liga.

Ou ninguém parece se importar. Ou ninguém parece, realmente, entender ou acreditar no que está comprovado que irá acontecer. Ou ninguém consegue se desvencilhar dos pequenos e pedantes detalhes sobre o jogo de poder político, sobre as mesquinharias que chamamos de notícias e que assistimos pela Internet e que, por si só, já são brutalmente irrelevantes e que, à luz dessa nova descoberta, parecem deformadas, senis e que ultrapassam todos os níveis de imbecilidade que acreditamos serem possíveis de existir. Acredito que, o que não vamos encontrar em Não olhe para cima – e que vimos inúmeras vezes em outros filmes com tragédias que ameaçam a continuidade da vida na terra – é a nossa autoimagem idealizada. O que não vamos encontrar nesse filme são as cenas de um roteiro escrito sobre aquilo que achamos que a humanidade faria, sentiria e pensaria caso fosse verdadeiramente confrontada com sua própria explosão final. Talvez, nós nunca fomos aquilo que assistimos em todos os Armagedom, Guerra dos Mundos, Independence Day, O dia depois de amanhã, Impacto Profundo.

Talvez, a negação, a apatia, a mesquinharia, a mentira e a fuga da realidade sejam as marcas humanas que deixaríamos como última memória de nossa passagem sobre esse planeta, caso ele venha a enfrentar esse pequeno transtorno de, um dia, se espatifar no espaço e deixar de existir.

Quando foi entrevistado para o lançamento de seu filme Melancolia – 2011, não está disponível em plataformas de streaming – o diretor dinamarquês Lars von Trier disse que sua intenção, ao lançar essa obra, era ensinar aos americanos como se faz um filme catástrofe. A personagem principal, vivida por Kirsten Dunst, é uma mulher profundamente deprimida e que encara a chegada do fim do mundo isolada em uma casa de campo. Suas últimas horas de vida – e da existência do planeta – são profundamente arrastadas e insuportavelmente banais, como a maioria das nossas tarde corriqueiras: das horas de trabalho que não passam, da espera tediosa em consultórios, das tarefas domésticas entediantes. Ela recebe o fim da existência como quem espera pelo momento final de um dia comum, pela hora de apagar a última lâmpada da casa e se deitar para, finalmente, dormir. Quem sabe, pensamos que encaramos a vida como uma dádiva, como uma benção que precisa ser louvada e defendida. Porém, é possível que Não olhe para cima nos acene de algum lugar muito incômodo e que esteja falando não só de um período político/social intolerável – marcado por negacionismo científico, política vodu e pelo esvaziamento da comunicação – mas, antes, ele esteja nos sugerindo que não queremos olhar para cima, procurando alguma salvação. Nem para o lado, reconhecendo a relevância do outro. Nem para baixo, para aqueles que julgamos inferiores e que não tem nada e que sofrem. Nem para trás, para entender o que nos trouxe até esse estado abjeto das coisas e pessoas. Nem para frente, porque perdemos a capacidade de esperançar um futuro feito de responsabilidades corretamente endereçadas e assumidas. Eventualmente, como só conseguimos olhar para nós mesmos, quem sabe o nosso fim não seria apenas um arrastado e inexpressivo drama sem ápice e sem graça.

Caso, um dia, o planeta inteiro realmente exploda no universo insondável, é possível que ele se evapore sem propagar sequer um pequeno ruído, apagando, assim, todas as pequenas e as grandes marcas e rastros de nossa estada por aqui. Um final apático e melancólico para uma humanidade egoísta e, por isso, insignificante.

 

Olivia Batista de Avelar. Professora de inglês, pós graduada em filosofia, apaixonada por cinema e escritora
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