Lisbela e o Prisioneiro

Lisbela e o Prisioneiro
Lisbela e o Prisioneiro
Olivia Batista de Avelar

Assisti Lisbela e o Prisioneiro quando o filme estreiou no cinema, em 2003. Eu tinha 19 anos e ia ao antigo Viva Cinema, que ficava no prédio em frente ao teatro municipal, mais ou menos três vezes por semana.

Saindo do elevador, uma parede cheia de posters de filme nos recebia no terceiro andar e eu olhava para os cartazes como quem folheava o álbum de fotos da própria vida: muitos ficavam ali por semanas, mas os filmes não eram exibidos por aqui; outros, eu queria usar como decoração no meu quarto e pedia ao atendente na bilheteria para guardar o pôster para mim, quando fosse retirado – nunca consegui nenhum.

A experiência táctil do cinema e dos filmes, em muitas cidades brasileiras, não existe mais. Gosto da grande quantidade de filmes disponíveis na internet e nas plataformas de streaming, no entanto, sinto que todo o ritual que era próprio de uma ida ao cinema – quando não se podia assistir ao filme recém lançado de outra forma – escapuliu do nosso alcance: ganhamos o acesso mais fácil aos filmes, perdemos a solenidade que se recriaria, no futuro, em forma de recordação. O velhíssimo ganha/perde da vida.

Aos meus olhos de 19 anos, Lisbela e o Prisioneiro era o nosso Cinema Paradiso. E, mesmo hoje, ainda acredito que alguns detalhes dos dois filmes se aproximam. Porém, já não procuro comparar um filme brasileiro a um clássico estrangeiro para validar e elogiar a obra do cinema nacional. Hoje, prefiro dizer que Lisbela é o nosso filme de declaração de amor ao cinema – colorido, vibrante, folclórico, brega, engraçado, valente, ingênuo, irônico, pitoresco – um filme nosso, sem necessidade de comparações. Porém, belissimamente ligado à profunda admiração que nasce do desejo inerente a todos que, como a personagem principal desse filme, suspiram, sonham e se fascinam diante da tela do cinema: a vontade de que a vida fosse um filme.

Todo mundo que ama cinema é um pouco Lisbela, um pouco do menino Toto de Cinema Paradiso, um pouco Cecília em A Rosa Púrpura do Cairo.

O lugar de onde, sentados e confortavelmente seguros, podemos usufruir de toda uma indústria dedicada a atrair e, em enorme medida, dar forma às fantasias do espectador.

Lisbela e o Prisioneiro é um jogo de espelhos, exatamente como em uma das cenas que mais amo no filme: a mocinha aprende a amar indo ao cinema e, enquanto ela assiste às cenas românticas que abrasileiram os filmes de Hollywood, nós também estamos no escuro, observadores silenciosos e desejosos de colorir com luz e sublimar com trilha sonora a nossa própria história de amor. É fascínio, como escreveu tantas vezes Luís Fernando Veríssimo, cinéfilo convicto e apaixonado. Sim, muitos de nós aprendemos a amar com o cinema. Apenas para, mais tarde na vida, nos contentarmos em colocar nossos pés de volta na realidade dos amores possíveis – e muito melhores, simplesmente, por serem reais.

Essa é a grande mágica em ser de verdade e não um personagem na tela do cinema: nós podemos escolher.

Todo filme de amor romântico é uma pausa, um parênteses. Deixamos a vida em suspenso por, em média, 90 minutos de drama encantador e vestígios oníricos que em muito nos lembram a realidade fora da caixa escura do cinema. Durante um filme, não só aprendemos com a encantada Lisbela, somos Lisbela: somos o audacioso e apaixonado Leléu, somos a desesperada e profundamente verdadeira Inaura. Somos as músicas da trilha sonora, somos os beijos perfeitamente enquadrados na tela e, principalmente, em nossas aspirações. Somos nós ali na tela. Uma parte de nós que se encontra e que se reconhece, quando todos estamos sentados lado a lado, sonhando o mesmo sonho, mas cada um à sua própria maneira.

Uma, entre as lindas músicas do filme, diz: o amor é filme – e eu concordo. Um filme que não acaba quando sobem os créditos. Um filme que, quando saímos do cinema, acompanhados de alguém que escolhemos para nossa vida, tudo passa a ser uma sequência de cenas pós créditos: aquela de quando esquecemos onde estacionamos o carro; aquela sobre não conseguirmos escolher em qual restaurante comer depois de sair do cinema; aquela em que, no caminho de casa, conversamos sobre as contas que precisamos pagar amanhã.

E se dermos muita sorte, a trilha sonora do filme nos acompanhará, tocando no carro que anda pela cidade, à noite, porque esse alguém especial ao seu lado, além de amar os filmes também te ama e, por isso, escolheu dividir a vida real com você.

 

Olivia Batista de Avelar. Professora de inglês, pós graduada em filosofia, apaixonada por cinema e escritora

 

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