As paredes de Maruípe, em Vitória, ganharam novas cores e significados. Um mural em homenagem à jornalista e cronista Carmélia Maria de Souza foi pintado no espaço Casu(Casa Urbana), um centro cultural afro-referenciado do bairro.
A intervenção faz parte do projeto “Sou Inocente”, idealizado pela artista Amanda Brommonschenkel e realizado em parceria com o Espaço Pé-de-Ser, Ponto de Cultura também localizado na região.
Mais do que uma homenagem a uma figura histórica da cultura capixaba, Amanda diz que a pintura é uma celebração da força coletiva da arte urbana.

Mais que isso, do papel que o graffiti desempenha na construção de cidades mais humanas, expressivas e conectadas com suas memórias.
“Ter um mural público dedicado à Carmélia é reafirmar a importância da arte como linguagem de resistência, de afeto e de pertencimento. É valorizar as mulheres e artistas que moldaram o imaginário capixaba”, explica Amanda.
A cronista do povo e a cidade que inspirou sua escrita
Conhecida como “a cronista do povo”, Carmélia Maria de Souza marcou o jornalismo e a literatura capixaba com sua escrita afiada e sensível.
Jornalista, escritora e boêmia, ela retratava o cotidiano de Vitória com humor ácido e olhar crítico, revelando as contradições de uma cidade em transformação.
A frase “Essa ilha é uma delícia”, criada por Carmélia, tornou-se um bordão que ironizava as dualidades da capital: bela e acolhedora, mas também desigual e em rápido processo de urbanização nos anos 1970.
Nascida em Rio Novo do Sul, Carmélia migrou para Vitória ainda jovem e construiu na ilha sua trajetória profissional e afetiva.
Faleceu em 1974, aos 38 anos, vítima de embolia pulmonar, deixando um legado de liberdade criativa e de resistência.
Seu trabalho foi preservado graças a amigos e colegas, como Amylton de Almeida e Milson Henriques, que organizaram e publicaram suas crônicas após sua morte.
O projeto e a força da arte no cotidiano urbano

A pesquisa que originou o mural vem sendo desenvolvida desde julho de 2025 por Amanda Brommonschenkel no Arquivo Público do Espírito Santo (APES).
O processo envolve o estudo de crônicas, entrevistas, fotografias e relatos sobre Carmélia, que inspiraram a proposta visual criada em conjunto com as artistas Thais Apolinário, Carla Désirée, Geanna Abreu, Luara Monteiro, Ione Reis, Nadine Luiza e Gisele Paulo.
A pintura, iniciada em 22 de setembro, transforma a paisagem do bairro e aproxima arte e comunidade. Quem passa pela rua já pode acompanhar o surgimento das formas e cores que recontam a história da cronista.
Mais do que um trabalho estético, o projeto reafirma o poder das intervenções urbanas como espaços de diálogo e memória.
O graffiti, nascido da cultura Hip Hop, é aqui instrumento de valorização da identidade local e da herança afro-brasileira, além de meio de ocupação simbólica e afetiva da cidade.
“O mural de Carmélia é uma forma de tornar a arte acessível, viva e presente no dia a dia das pessoas. A rua é o maior museu que temos, e cada intervenção como essa é um convite à reflexão e ao pertencimento”, destaca a coreógrafa Yuriê Perazzini, gestora da Casu.
Cultura viva e coletiva
A ação dá continuidade às iniciativas de base comunitária do Espaço Pé-de-Ser e da Casu, que promovem a arte como instrumento de transformação social e fortalecimento de vínculos.
As duas instituições atuam na formação cultural, na pesquisa e na promoção de artistas locais, com foco na diversidade e na valorização da identidade capixaba.
A pintura pode ser acompanhada pelo público, diretamente do espaço urbano, basta passar pelo local e observar a transformação.
O projeto é uma realização do Espaço Pé-de-Ser, com apoio do Edital nº 004/2024 – Chamamento Público de Seleção de Propostas para Apoio a Atividades e Apresentações Artísticas.
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