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O mercado como educador

A educação brasileira não liberta ninguém: nem os professores, muito menos os alunos. Ano após ano, assistimos seus pequenos rostos se formando na escola e sendo, imediatamente, atirados ao moedor de carne que chamamos de mercado de trabalho. Não há educação – há adestramento.

A diferença é descomunal, mas não é mencionada. Tão pouco, fica escondida: passeia pelo pátio a pleno sol de meio-dia. Não passa despercebida – esse é o jogo em curso, essa é a substituição: chamar de “educar” o aparato construído para “adestrar”.

Não escrevo aqui uma denúncia (não se denuncia algo que todos sabem). Não me dirijo aos professores com julgamento (não me dizem respeito os motivos individuais que levam cada um à sua parcela contributiva ao desfigurar a profissão). Não me dirijo aos pais de alunos (porque seria perda de tempo).

Há um grande pacto mudo da sociedade sobre a educação e quem decide gritar sobre ele e expor as veias corroídas das escolas e os nervos esgarçados dos corpos docente e discente acaba recebendo somente aquilo que merece: a indiferença. Inadvertidamente, o filme Sociedade dos Poetas Mortos me fascinou ao ponto de me moldar como gente e como professora. Consequentemente, minha paixão pelo filme minguou quando a realidade me esfregou na cara o romantismo vazio e o estrangeirismo enlatado dessa história.

Professores trapaceados pelo próprio ego acreditam que o seu sucesso, fama e títulos são o início, o meio e o fim do processo educacional. Não são.

Pais e alunos arrogantes e pueris acreditam que as professoras são serviçais responsáveis não só pelo conteúdo escolar, mas por todo psicológico e emocional das crianças e jovens. É preciso confiar no conhecimento e na palavra do professor e não fazer dele um subordinado que deve adular e abanar cada aluno e correr para atender todas as vontades dos jovens inseguros que não sabem ouvir não. Nenhuma das partes se compromete com o processo correto e saudável e a soma dessas personalidades distorcidas resulta em uma matemática perversa.

No vácuo das relações distorcidas entre professores, alunos, escola e família, nasceu a erva danosa do “professor herói” – um rótulo conveniente ao estado pífio, às empresas disfarçadas de escolas, aos pais que terceirizam a responsabilidade sobre os filhos e precisam de bodes expiatórios para suas ausências e incompetências e, principalmente, para os próprios professores, que preferem chamar de heroísmo sua sobrecarga, seu cansaço e sua estafa mental, emocional e psicológica.

E todos convivem na sociedade que merecem. Não está bom nem confortável para ninguém, mas seguimos celebrando formaturas que mais parecem enterros de personalidades, da criatividade, da espontaneidade, da possibilidade de se ter uma vida e não só uma carreira. Sim, o meu idealismo me fazia pensar que eu ajudava a formar cidadãos e não só profissionais.

A única liberdade que a educação tem a oferecer é a de preparar indivíduos capazes de produzir com os conhecimentos que memorizaram e de consumir os produtos que escolherem. E todas as partes envolvidas nesse processo concordam com isso. Errada estou eu.

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