O tempo e o vento – o cinema e a literatura brasileira

O tempo e o vento – o cinema e a literatura brasileira
O tempo e o vento – o cinema e a literatura brasileira
Olivia Batista de Avelar

O tempo e o vento – 2013, disponível na Netflix – é um filme baseado na série literária do autor Érico Veríssimo. Contando uma parte importante da história do sul do Brasil, é considerada uma obra muito relevante da literatura brasileira e já foi adaptada, também, para a televisão – em formato de minissérie – no ano de 1985.

No Brasil, existem cerca de 100 milhões de leitores, que compõem 52% da população. É o que mostra a 5ª edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, divulgada no dia 14 de setembro de 2020, com dados de 2019. Porém, a pesquisa revela que houve uma queda de cerca de 4,6 milhões de leitores, entre 2015 e 2019. A Retratos da Leitura no Brasil considera leitor toda pessoa que leu, inteiro ou em partes, pelo menos um livro nos últimos três meses antes da realização da pesquisa. São dados como esse, sobre o hábito de ler e sobre o acesso que nossa população tem aos livros, que me fazem pensar o quanto é importante que obras da nossa literatura estejam presentes nos meios de comunicação de massa, como a televisão aberta, o cinema e os canais independentes no YouTube e em outras redes sociais. Através desse contato mais direto e instantâneo é possível que muitas pessoas possam conhecer nossos autores, possam se encantar pela riqueza da nossa literatura e, depois desse primeiro encontro com as obras, possam conhecer também os livros.

Infelizmente, existe, no Brasil, enraizada uma ideia arcaica e infeliz de que livros são artigos de luxo e de que só uma parcela com maior grau de instrução e de classe social mais alta se interessa pela leitura.

Porém, esse pensamento é equivocado, bastante elitista e, acima de tudo, mentiroso, pois é justamente a falta de investimento em bibliotecas públicas que atendam às regiões periféricas das cidades e o alto preço dos livros – que tendem a subir ainda mais caso eles deixem de ser isentos de imposto – que são fatores impeditivos para aqueles que querem ler, mas encontram barreiras para ter acesso aos livros. Taxar os livros com o argumento de que “só ricos leem” é excluir ainda mais uma enorme parcela da população que não lê mais pela dificuldade de acesso aos livros, não pela falta de vontade ou interesse.

Taxar os livros é aprofundar ainda mais o abismo que separa as classes mais baixas daqueles que podem pagar pelo conhecimento.

Tenho uma história pessoal que reflete muito bem a postura do brasileiro médio sobre quem tem interesse e direito à literatura: no ano de 2001, eu tinha 17 anos e estudava em uma escola particular de Cachoeiro com bolsa integral. Não fosse esse desconto de 100% na mensalidade, eu não poderia estudar lá, pois minha família não tinha condições de pagar por uma escola privada. Durante uma aula de língua portuguesa, a professora – muito conhecida e renomada em nossa cidade – disse que daria um ponto na média para quem respondesse quem era o autor da obra O tempo e o vento. Passados alguns minutos de silêncio na sala de aula, eu levantei a mão e respondi: Érico Veríssimo. Depois da minha resposta, a professora se manteve séria e perguntou para a turma, sem olhar para mim: quem soprou a resposta para ela? Algum colega de sala, já não me lembro quem, respondeu: ninguém não, professora. Foi só depois de apagar o quadro, ajeitar os livros sobre a mesa e guardar o giz na caixa de madeira que ela me olhou e disse: eu não sabia que você gostava de ler. Depois me lembre de adicionar seu ponto extra no meu diário. E eu fiquei bastante feliz pelo ponto que ganhei na média, mas fiquei pensativa, e muito envergonhada, sobre todo o resto. Na verdade, tinha muita coisa que aquela professora não sabia – sobre mim e sobre o mundo. É esse tipo de olhar sobre as pessoas, principalmente sobre as pessoas de classe baixa, que mantém, em nosso país, tantas injustiças e desigualdades como fatos consumados e imutáveis.

Sobre a minha história, ela já aconteceu há muitos anos e, felizmente, tive a alegria de conhecer muitas outras pessoas e, também, muitas outros professores e professoras que tem uma visão muito mais realista da sociedade e muito mais respeitosa dos indivíduos. Os pobres querem e gostam de ler e são aqueles e aquelas – como a minha antiga professora – que pela falta de sensibilidade, de conhecimento social e de vontade de construir uma sociedade onde o conhecimento é acessível a todos, atuam diariamente para manter os privilégios de poucos e a exclusão de muitos. Hoje, depois de tanto tempo, escrevo aqui a verdade sobre quem me assoprou aquela resposta – que me rendeu um ponto na média e uma indagação sobre a vida e os lugares que as pessoas ocupam no mundo: foi o vento. O vento rasteiro e cortante que, como nas páginas escritas por Veríssimo, faziam subir a poeira e cantar os galhos das árvores.

Os ventos que deixavam atentos os personagens e que prendiam os leitores à sua saga de história e de amor. Foram os ventos que me assopraram a resposta – os ventos da mudança. Os ventos que transformam a sociedade e a gente.

 

 

Olivia Batista de Avelar. Professora de inglês, pós graduada em filosofia, apaixonada por cinema e escritora
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