Out of Africa – Entre dois Amores

Out of Africa – Entre dois Amores

“Eu tinha uma fazenda na África, no sopé das colinas Ngong. Aqui estou, onde deveria estar. Tenho sido uma viajante mental – por toda a minha vida.”

Esses são trechos do livro “A Fazenda Africana” lançado em 1937 e assinado por Isak Dinesen. Sucesso instantâneo, as palavras de admiração e declaração de amor às cores e à natureza exuberante contavam a história de vida de uma mulher audaciosa que comandou uma plantação de café no Quênia, por volta dos anos de 1914. Dinesen era um pseudônimo e a história era verdadeira. Anos mais tarde, o livro começaria a ser publicado com o nome de sua verdadeira autora, a mulher que viveu tudo o que está escrito nas páginas dessa história: Karen Blixen tinha uma fazenda na África. Uma dinamarquesa que construiu uma fazenda cafeeira aos pés das colinas Ngong. Que caçou leões e que seguiu seu próprio coração indômito ao amar o homem que, por muitas noites, sentava-se perto do fogo e lhe pedia que contasse mais uma de suas fascinantes histórias. Karen, que na juventude sonhava em ser pintora, criava seus quadros com as palavras e, enquanto entretia, elevava a imaginação e a admiração de tantos homens e mulheres que frequentavam as varandas, salas e bibliotecas da grande casa em que ela viveu e amou, nos arredores da Nairóbi do início de século 20, ainda sob o domínio Inglês.

O filme Out of Africa – Entre Dois Amores em tradução brasileira – disponível na Netflix, foi lançado em 1985, em comemoração ao centenário de nascimento da autora. São pouquíssimos os filmes românticos que me encantam – não porque me considero inalcançável para as histórias de amor – mas, antes, porque contar algo que é, ao mesmo tempo, tão íntimo e tão universal, é uma tarefa que requer delicadeza e experiência. É preciso saber tocar a verdade de todos nós, que já amamos: queremos nos reconhecer nas mais curtas frases, nas motivações altruístas ou mesquinhas, na vergonha e na humilhação das mentiras veladas e na certeza desoladora das verdades perdidas. Ninguém ama igual. E, também já foi escrito, muitas vezes, que um mesmo amor não acontece duas vezes. Irrepetível e universal.

Uma história de amor nunca contará a nossa própria história, mas o que buscamos encontrar – em cada uma delas – é a confirmação inequívoca de que, sim, foi amor o que experimentamos em nossa vida.

As paisagens africanas arrebataram Karen e a receberam em toda a sua opulência, mistério, dominação classicista e sabedoria tribal. O contraste entre a porcelana elegante em suas mãos e os pés escalavrados e descalços de seus trabalhadores nativos: ela deslizava entre ambos os extremos e curava os Kikuyus doentes com a mesma elegância e altivez que desdenhava dos administradores ingleses, o gramofone instalado ao ar livre, tocando Mozart enquanto Karen e Denys observavam o leão que devorava sua presa. Todas as vezes que assisto essas cenas, me pergunto: será que Karen realmente existiu? Será que ela se lançava a viver aquilo que seria digno de, anos mais tarde, ir parar nas páginas de seus próprios livros? Ou será que, de tão fantástica a sua história, se trata, na verdade, de uma personagem – entre as muitas condessas e odaliscas e chineses e espiões embarcando em aviões – que saltou do seu livro e exigiu ter uma vida própria? Uma metonímia de si: Karen viveu uma vida absurdamente digna de ser contada e, não bastasse, foi ela mesma quem segurou a pena e transcreveu sua história. Podemos ler Karen no cinema, nos seus livros, nas pedras da savana.

Não sei quem eu admiro mais: a mulher real, cuja pele se queimou sob o sol africano durante a colheita do café e que se iluminou sob a luz da lua, dançando e segurando uma taça de champanhe em noites de gala ao som dos animais tão próximos; ou a personagem que ela criou de si – aquela que sobreviveu à sua própria morte e que se fez história. Que se fez histórica. E que sobrevoa, ainda hoje e agora, os rios caudalosos do Quênia, feito ave que vigia e que zela. Que ainda planta e escreve com as próprias mãos. Que amou imensamente um país estrangeiro como se fosse seu, um homem com quem nunca se casou e a si mesma e sua própria jornada ao ponto de se eternizar como a heroína máxima de sua admirável vida. Esse é o meu filme romântico preferido – o que afirma: vão-se as posses, nos despedimos das paisagens, as pessoas morrem, os anos se esvaem. Mas, o amor – esse permanece.

E é com essa certeza fulgaz que nos permitimos sentir que “futuros amantes, quiçá, se amarão sem saber, com o amor que eu um dia deixei pra você.”

 

Olivia Batista de Avelar. Professora de inglês, pós graduada em filosofia, apaixonada por cinema e escritora

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