Peixe Grande e suas histórias maravilhosas

Peixe Grande e suas histórias maravilhosas

Aconteceu uma vez, quando abri os olhos. De uma caixa muito pequena vinha uma luz pálida e fraca, quase não se conseguia ver o que estava lá dentro.

Foi então que, movida e comovida, apertei um botão e, de dentro daquela pequena caixa, saltaram centenas, milhares de flores amarelas que brilhavam e dançavam, frescas e úmidas, aos acordes do vento e aos comandos do sol. Vindas de muito longe, de uma terra que não conheço, jamais me chegariam intactas de outra forma que não fosse a caixa mágica em minhas mãos. Por isso, a caixa de luz branda e sua importância: para enviá-las e para mantê-las – perfeitas, vicejantes e perfumadas – durante o percurso. E assim permanecerão, não por alguma obra antinatural – pois, se há algo destinado a seguir invariavelmente o seu curso, é a natureza – mas pelo fazer ao qual me dedico, nesse exato momento: as flores existem, de novo e agora, porque estou contando sobre elas. São minhas porque estão nessas linhas que comecei a escrever. É dessa, e de nenhuma outra forma jamais inventada, que nos apropriamos daquilo que não se pode reter ou conter: as flores são e serão minhas porque eu as reivindico ao fazer delas parte memorável da minha história.

Peixe Grande, 2003 – disponível na Netflix – é um filme sobre histórias. Um filme sobre a forma que escolhemos para relatar o que nos acontece e sobre como essas escolhas, palavra por palavra, dia após dia, acabam por se tornar a nossa própria vida. Na busca para entender melhor o pai, para saber “a verdade” sobre ele, o personagem William confronta os discursos fantásticos que ouviu desde a infância: obcecado por conhecer o homem por traz da narrativa, por despir o mito, por olhar nos olhos do sujeito que controlava todo esse maquinário fabuloso, a fábrica humana de passagens incríveis que, tal como fazia o grande mágico de Oz na Cidade das Esmeraldas, derramou seu carisma e intangibilidade sobre toda a vida e criação de Will.

Durante o filme, dirigido por Tim Burton, acompanhamos tanto a escalada fantasiosa das histórias do pai, quanto a jornada do filho ao encontro da dissolução de um dilema: a oposição entre mentira e verdade. É delicado e espinhoso falar sobre essa dicotomia, na atualidade. Vivemos em uma pós-verdade que está envenenando nossas relações sócio-políticas e que se avulta e assombra, para minha tristeza, também sobre o tipo de arte, literatura e cinema que se pode produzir e fazer nascer nesses tempos tão realistas e, ao mesmo tempo, tão pouco dignos da nossa confiança. Mas, tal como o filho que enxergava a biografia do pai como um iceberg – a verdade sendo a parte visível de sua persona e toda a parte submersa como as mentiras que ele tentava esconder – podemos estar sendo enganados, tomando o caminho errado, que nunca nos permitirá chegar onde desejamos.

Enquanto a pós-verdade se apropria dos fatos ao seu bel prazer, editando o colando a uma pequena fração de verdade uma enorme quantidade de mentiras úteis, a ficção e a fantasia atuam no sentido inverso dessa intenção.

O que a manipulação chamada de pós-verdade faz é usar só um pouquinho de verdade e, ao mesmo tempo, vendar nossos olhos com um monte de mentiras. Assim, somos iludidos: ao nos agarrarmos ao ponto de partida verdadeiro, somos cada vez mais levados pela mentira manipuladora. E para onde somos conduzidos? Pelo caminho mais útil e mais conveniente para aqueles que orquestraram a narrativa mentirosa. É um destino às cegas onde, muito provavelmente, nem nos passou pela cabeça chegar. Somos levados como prisioneiros contra a nossa vontade.

O exercício da ficção, da literatura fantástica, também toma a verdade como pedra inaugural das suas pretensões. Porém, ao acrescentar símbolos e passagens e criaturas incríveis, é exatamente aí que ela nos liberta. Ao invés de nos vendar os olhos ela nos presenteia com uma caixa infinita de lentes com todas as combinações de cores. Ela nos dá o poder da palavra para que, através do nosso esforço imaginativo e, sobretudo, criativo, possamos ser tomados pelo encantamento e assim, encantados, sermos livres.

Peixe Grande é uma ode à liberdade do pensamento e à infinita capacidade humana de se inventar através da linguagem e da contação de histórias. O que me levou a rever esse filme tão querido, depois de quase 20 anos que o assisti pela primeira vez, foi exatamente a necessidade de me sentir livre, mesmo que fosse por um par de horas, da opressão das narrativas de desesperança e do desgoverno da mentira.

Fantasiar não é mentir, é colorir a verdade para que ela seja maior, mais abrangente e mais simbólica que os fatos. Nesse período governado por mentiras, nosso mais infalível e fiel escudo de proteção vem do incrível, único e fortificador mecanismo humano de inventar, contar e acreditar em suas próprias histórias de heroísmo, autonomia, criatividade e, principalmente, esperança.

A verdade: eu recebi, pelo celular, um vídeo de um campo de flores amarelas, muito parecidas com as mostradas em uma das passagens mais singelas do filme. A caixa mágica que transporta e preserva as tulipas contra a ação do tempo é uma invenção fantástica e, por isso mesmo, muito mais encantadora e comovente. Engrandecer, enaltecer e fantasiar à partir da verdade é o dever do artista. Ocultar e manipular os fatos é ação daqueles que nos querem levar pelo terreno infértil e fúnebre dos autoritarismos de morte.

Olivia Batista de Avelar. Professora de Inglês, pós graduada em Filosofia, apaixonada por Tarot e Astrologia e Escritora
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