Radioactive

Radioactive

Tenho acompanhado, nas últimas semanas, as oitivas das testemunhas convocadas à comissão parlamentar de inquérito que investiga as ações do governo federal durante a pandemia de COVID 19. Uma tarefa desesperadora. Gosto de me informar, de saber sobre os acontecimentos recentes, sobre as falas e as atitudes das pessoas relevantemente envolvidas nas decisões e nas omissões com relação ao que estamos vivendo, desde março de 2020. Porém, admito que é cansativo e, também, bastante triste. Não pretendo me alongar ou me aprofundar nas questões político-partidárias em que estamos atolados até o pescoço, no Brasil do ano dois da pandemia, pois esse não é o meu objetivo principal – falo aqui sobre cinema e sobre as perguntas que ele me traz. Foi assistindo a algum dos depoimentos da CPI que me lembrei desse filme e o escolhi para escrever sobre, nessa semana.

A lembrança me veio à cabeça colada a uma série de perguntas para as quais, já aviso de antemão, não tenho as respostas ou, sequer, a mínima pista de quem as poderia ter. Ou, até mesmo, se é possível chegar até elas.

Radioactive, 2019 – disponível na Netflix – é uma cinebiografia que conta a história da cientista Marie Curie. Marie Slodowska, esse era seu nome de solteira, casou-se com Pierre Curie e, juntos, formaram uma parceria para estudos científicos na Paris do final do século 19 e início do século 20. Marie ficou conhecida por suas importantes contribuições sobre elementos radioativos até então desconhecidos. Porém, o filme mostra, de forma brilhante, os desdobramentos de suas descobertas ao longo de todo o século passado: sua contribuição para a ciência permitiu à medicina salvar inúmeras vidas, mas também favoreceu a morte de milhares de pessoas quando os mesmos avanços científicos que ela trouxe para a sociedade foram usados durante as guerras.

A cor verde incandescente do elemento rádio ganha um lindo e terrível destaque durante todo o filme: o verde que, em nosso imaginário simbólico e cultural, significa caminho aberto, nos sinaliza de que foi dada a largada e, de uma maneira mais poética e singela, a cor que nos remete à esperança – aos olhos da natureza não humana, emana uma aura muito mais contraditória e amoral:

toda descoberta científica carrega em si um fascínio e uma maldição.

A natureza somente é, enquanto nós, seres humanos, somos aqueles que na lida com nossos avanços e descobertas precisamos nos debater com dilemas éticos e morais. Somos nós os seres dotados de consciência, palavra que significa, de forma simplista, a capacidade de perceber a relação entre si e o outro. Ao tomar conhecimento de que suas descobertas foram usadas para matar, Marie Curie se tornou consciente do potencial devastador de seus estudos sobre a humanidade – o mundo se transformou com o que ela descobriu. No entanto, a responsabilidade pelas atrocidades de guerra não é dela, mas sim daqueles que usaram deliberadamente os conhecimentos científicos com o objetivo de matar. É quando perguntamos quem é o responsável (aquele que deve responder) que encontramos os culpados. A culpa deve recair sobre aqueles que, antes da catástrofe, já eram os responsáveis por uma determinada empreitada, por um determinado negócio, cidade, estado ou país. Sobre aqueles que assumiram os riscos de agir, não agir e de como agir, pois era deles o poder para tais escolhas.

Me lembro da cena em que Marie Curie caminha, a tela queimando em verde esmeralda, pelos cenários aterradores de morte e destruição impingidos às pessoas pelo uso de suas tão fantásticas descobertas: “o que vocês fizeram com o que eu descobri? Se a minha ciência salva, porque vocês escolheram matar?” Humildemente, coloco em palavras o que eu absorvi do olhar que a atriz Rosamund Pike, que interpreta Curie, cedeu para sua personagem.

Minhas perguntas sem resposta: quando uma sociedade coloca no poder um irresponsável, alguém que não desenvolveu a consciência de si e do outro – é essa sociedade a responsável pelos males que ela mesma sofre?

Vivemos em um período de tão profunda falta de consciência que será impossível reconhecer o óbvio: que se aqueles que deveriam agir – os responsáveis – não o fizeram ou o fizeram erroneamente, é deles a culpa por tudo que estamos passando? Apesar da simbologia da cor verde, enraizada em nós com seu sentido de avanço e aspiração de futuro, o verde radionico mostrado no filme me empurra para sua face de espanto e de terror. Sem ciência, sem consciência, sem responsabilidade, sem o dever de respondermos pelos nossos atos e omissões, sem o direito de punir os culpados – só nos restará a barbárie orquestrada, o desespero calado e a profunda melancolia teatral e interminável das discussões vazias e inúteis de internet. Novamente, o verde hipnótico do elemento rádio: menos esperança e mais horror, é o que ele me diz.

 

Olivia Batista de Avelar. Professora de Inglês, pós graduada em Filosofia, apaixonada por Tarot e Astrologia e Escritora

 

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