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Rede de ódio – ou aquele que odeia

Com poucos minutos de filme, Tomasz (Maciej Musialowski) carrega Gabi (Vanessa Aleksander) nos braços. A câmera nos mostra sua caminhada triunfal ao encontro da visão e da versão que ele tem de si mesmo – ao longo do filme, conhecemos fragmentos da vida desse personagem: sua infância pobre, sua fascinação pela filha de seus benfeitores financeiros, sua disposição, sua vontade, seu devir.

Mas, nessa cena em particular, podemos observar Tomasz pelos olhos dele mesmo – a câmera nos pinta um autorretrato; altivo e audaz, resoluto e digno, ele exibe sua potência e sua capacidade de chegar aonde quer somente por suas habilidades e conhecimento pessoais. A passagem é breve, não dura, como não poderia durar.

Tão rala e pueril autoprojeção nada pode diante das engrenagens vivas movidas a espasmos – que é aquilo que somos, todos nós.

Em poucos instantes, seremos espectadores de sua descida vertiginosa até o inferno – não o inferno cristão, não o inferno que aguarda os pecadores e a eles reserva a danação eterna, mas o inferno dos vivos, o inferno daqueles que desejam e entendem que serão privados de seu objeto de desejo somente por serem quem são, por terem nascido onde nasceram, por serem parte do enorme exército de reserva da humanidade que não goza sua própria vida, mas antes vive, respira e trabalha para que outros o façam.  A ausência de desejo é indiferença. Mas a impossibilidade de satisfazer o desejo é o prefácio do ódio.

Traduzido para o português como “Rede de ódio”, um título que nos direciona o olhar para a trama social diluída e sem rosto, o título traduzido para inglês – The hater – nos aponta o dedo no cara: literalmente “aquele que odeia”.

O diretor do filme posiciona suas peças tal qual gladiadores no Coliseu Romano, o embate com os leões feito de guerras de ego e vaidade. O pano de fundo da história é atual e, até certo ponto, repetitivo: a simbiose das redes sociais que alimentamos e que, simultaneamente, nos influenciam, e influenciam a sociedade civil – o debate onipresente que, muito provavelmente, tende a criar raízes nas produções cinematográficas em geral.

No entanto, se nos atentarmos aos detalhes, perceberemos que é nas sutilezas que o filme se esquiva dos clichês: desde Petrarca, passando por Michel de Montaigne, muitos foram os autores que exaltaram a estrutura social das abelhas como exemplo e como símbolo de comparação à sociedade humana.

Em suas castas imutáveis, as abelhas vivem para aquilo que nasceram, e morrem da mesma forma que viveram – como parte de uma engrenagem perfeita e anônima. Não seríamos, nós todos, os anti-abelhas, que, assim como Tomasz, voamos para longe de nossas colmeias porque não nos conformamos com os lugares que nos impõem? Porque queremos ser vistos pelos outros da mesma forma que vemos a nós mesmos? Porque desejamos o que nos aguça, devora e depois jorra em regozijo e sucesso do eu?

São as abelhas que não desejam e também não odeiam: a inexistência de um implica no desaparecimento do outro. E é o ódio humano que exala da tela mais como um perfume do que como uma ideia: as imagens do filme funcionam melhor se sorvidas na inspiração, porque assim, escapando ao nosso senso de moral e julgamento crítico, nos atingirão em cheio o sistema límbico.

O filme, do diretor polonês Jan Komasa, não se apequena, não se faz mensageiro de tempos sombrios ou de leis vindouras contra terrorismo virtual, não toma lados, não se justifica e não pede desculpas. O arco dos personagens, o desencadeamento dos fatos, as decisões e consequências: a história se passa em 2020, mas poderia ser ambientada em tempos remotos, na antiguidade clássica, em um burgo medieval ou no despontar dos séculos que viram nascer a modernidade.

A tecnologia, enquanto aquilo que é inventado pelo homem para facilitar sua própria vida, não se sobrepõe à tragédia humana – durante os 136 minutos de filme, ela não toma para si o palco ou as rédeas das atuações daqueles que entram e saem da cena da própria existência: por isso também pode e deve ser eximida da responsabilidade indevida e expiatória que muitas vezes recebe da sociedade e dos filmes.

Vale ressaltar o que foi, a meu ver, a única cena em que o personagem principal se despiu de seu intelecto e de seus afiados mecanismos de defesa para revelar a nós, e somente a nós, os expectadores, o nascedouro envenenado que penetra sua própria digital e tinge tudo aquilo que ele sente e toca: é no uso das máscaras/avatares e da ocultação do eu que o ódio escorre para fora de nós, que chega às ruas, que se alastra pela humanidade.

Enquanto o desejo nos individualiza, nos lança além através da vontade, impulsiona o eu feito dardo apaixonado e rasante, é a frustração e a não satisfação dos nossos desejos que nos arremessa de volta ao anonimato e à escuridão, para trás das máscaras de onde podemos odiar sem corrermos o risco de destruirmos quem somos.  Quem nunca desejou não é humano. E quem nunca odiou é abelha.

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