Relatos do mundo

Relatos do mundo

“O sol nas bancas de revista me enche de alegria e preguiça: quem lê tanta notícia?”

Vivemos a era da tsunami de informação. Das notícias que nem são notícias. Da pós-verdade. Da criação deslavada de conteúdo que é empacotado e nos enfiado garganta abaixo sob o pretexto de que precisamos saber o que se passa ao nosso redor. Que precisamos saber o que se passa no mundo. Uma guerra sem trégua de narrativas que alteram e contorcem o rumo das coisas em questão de segundos e do número de cliques.

O escritor norte americano H. D. Thoreau escreveu, no século 19, que se os jornais fossem escritos somente com notícias verdadeiras e relevantes eles poderiam ser publicados de cem em cem anos. Às vezes, essa afirmação ainda me inquieta e me pergunto se ela ainda se aplica aos noticiários do século 21.

O filme Relatos do Mundo – Netflix 2020 – baseado no livro de mesmo nome, lançado em 2016, nos conta de um tempo em que receber as notícias de jornal era um evento, um momento vivido em comunidade e compartilhado pelos iguais que, reunidos com horário marcado e organizados como quem vai à missa, sentavam-se para ouvir histórias de um mundo distante do seu, notícias cujo impacto sobre suas vidas, suas famílias, suas dores e seus afazeres independia completamente de seu conhecimento. Tanto menos de seu entendimento. Nunca de sua concordância ou permissão.

Ao assistir o personagem principal, interpretado por Tom Hanks, narrando para aquelas pessoas que, em sua maioria não sabiam ler, acontecimentos que provavelmente já tinham ocorrido há muito tempo percebemos o quanto a sensibilidade pode criar um mundo de palavras para entreter aqueles que vivem sobre essa terra absolutamente desprovidos de poder sobre os fatos, sobre suas vidas e sobre si mesmos e seus destinos.

Conforme a história avança, acompanhamos como o homem sem sentido para viver, que vagava sem rumo e se ressequia como a areia da paisagem e as páginas secas do papel se reconfigura em um inspirador: de alguém que finge informar para aquele que representa, que dramatiza.

Daquele que carrega as notícias velhas e semimortas para aquele que aviva as almas, que prende a atenção da massa transformada em plateia, que percebe que o poder das palavras é o de impulsionar as ações e os afetos.

E hoje, séculos depois, continuamos fatalmente irrelevantes, consumidores de notícias de um mundo alheio à nossa vontade ou alcance, entupidos de relatos que só nos avisam do que não podemos mudar e que nos deixam, todos os dias, a sensação indigesta de quem engoliu uma enorme refeição de palavras que não se consegue digerir ou tirar delas a força e o encantamento necessários para seguirmos caminhando pelo vasto e árido caminho que nos espera.

Pois é o dedo na garganta o que nos falta. Nos falta vomitar as notícias cadavéricas e inúteis que nos empapuçam e adormecem – feito comida podre que não alimenta e nos causa doença e inanição. Uma vez esvaziadas as vísceras. Uma vez leves e, no devido tempo, famintos, que possamos comer as palavras que nos aquecem o fogo de viver, o pequeno fogo que nos mantém atentos ao que nos interessa e ao que nos cabe. As palavras que são arte.

O mundo é grande e seus relatos não deviam incomodar o nosso pequeno estado de ser. O nosso pequeno espaço de irrelevância. Que o mundo resolva suas queixas sem nos informar delas. Que pelo menos a nossa insignificância seja acompanhada pelo silêncio ou pelas palavras de beleza e de paz.

 

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