Sex and the city – sobre escrever a própria vida

Sex and the city – sobre escrever a própria vida
Olivia Batista de Avelar

Na última semana, estreiou na HBO Max o retorno da série Sex and the City e a continuação foi renomeada para And Just like That: um novo capítulo. A série original, na qual se baseou esse filme de 2008 que está disponível também na plataforma de streaming da HBO, foi considerada um marco na produção desse estilo de séries televisivas. Lançada em 1998, a série trouxe quatro mulheres como protagonistas e abordava temas como sexualidade, casamento, atração física e traição. Mas, para além dessa temática bastante explícita no próprio nome da série, a cada nova temporada os episódios e as personagens ganhavam mais confiança para discutirem temas mais sutis: aspectos das relações humanas, da nossa vida íntima e em sociedade, sobre o passar do tempo e sobre como lapidamos as amizades.

Tudo na história dessas quatro amigas me encantava profundamente e posso dizer, com certeza, que aprendi muito sobre mim e sobre a vida durante os anos em que acompanhei a série.

Sex and the City – O filme – lançado quatro anos após a série ter sido encerrada – reencontra as quatro protagonistas algum tempo depois do final que acompanhamos no último episódio da sexta temporada. Há muitas histórias relevantes e interessantes na trama que levou essa história para a tela do cinema, porém, pretendo aqui dar atenção para alguns dos detalhes que mais me encantavam nas temporadas televisivas e que, para minha alegria, permaneceram como parte estrutural do filme. Carrie Bradshaw é uma escritora que vive em Nova York e o nome que batiza a série é o mesmo nome da sua coluna semanal para um jornal daquela cidade. Os episódios são narrados pela consciência de Carrie – pelo diálogo interno que ela desenvolve enquanto vive, ama, chora, acerta e erra pela cidade que ela ama profundamente e que escolheu, desde muito nova, para viver e para desenvolver e mostrar seu trabalho. Os encontros com namorados e ex amantes, as conversas com as amigas em seu apartamento ou pelos muitos bares, restaurantes e clubes nova-iorquinos, as dúvidas e os tropeços, os sonhos realizados e as frustrações, as doenças, as alegrias, as verdades difíceis de engolir, as mudanças de vida e os pedidos de perdão, as vergonhas públicas e as mentiras privadas. Tudo. Tudo o que Carrie vive e sente – na companhia de todas as pessoas que passaram por sua vida – são a matéria prima daquilo que ela escreve em suas colunas para o jornal. Colunas essas que, na maioria dos episódios, começam com uma pergunta já nas primeiras linhas. E por que isso tudo que eu acabei de escrever me fascinava tanto, há alguns anos, e continua sendo tão importante para mim, até hoje? Porque gosto de pensar que foi com essa personagem, que foi com Carrie Bradshaw que eu aprendi a escrever.

Eu sempre quis ser escritora. Desde quando aprendi a ler e a escrever me lembro que, para mim, a coisa mais bonita do mundo era a palavra impressa.

Eu achava que tudo que era realmente importante estava escrito nos livros. Eu explodia de felicidade quando, ainda criança, eu lia o autor Ruben Braga e, em algumas de suas crônicas, eu encontrava o nome da nossa cidade ali, no meio das palavras importantes. Eu pensava: com tanta cidade no mundo, que sorte eu morar em Cachoeiro de Itapemirim, a cidade que tem o nome escrito no livro. Eu admirava Ruben Braga, mas tudo que eu sabia dele era o que eu lia nas crônicas. Até mesmo seu rosto eu demorei muitos anos para conhecer.

Quando digo que foi com Carrie Bradshaw que eu aprendi a escrever faço isso porque foi assistindo à série e depois aos filmes que eu percebi que uma escritora nunca para de escrever, mesmo quando está dançando, ou andando pelas ruas e ouvindo as risadas e as reclamações de quem a acompanha.

Carrie escrevia com olhos, com as festas, com os silêncios, com as estações do anos que se alternavam do lado de fora da sua janela. Foi com ela que aprendi o que acredito e que tento, a cada dia mais, fazer e desenvolver: a crença de que tudo é texto e que o momento reservado para nos sentarmos e realmente digitarmos as palavras é, somente, o toque final, a entrega palpável de algo que já estava e que, sempre, permanecerá em curso.

Sex and the City é um filme sobre amizade, sobre amor, sobre casamentos que se desmancham e sobre relações que se reconstroem. É bonito, é engraçado, é emocionante e é encantador. Mas, se você for assistir ao filme, deixo aqui uma última palavra, uma última linha: mesmo que você, diferentemente de mim, nunca tenha sonhado sobre escrever e que não goste tanto assim de escritores, tudo bem, o filme é ideal pra você também. Porque as histórias que a Carrie vive e que ela escreve (e nesse filme ela escreve um livro também, além das colunas) não nos ajudam somente a sermos autores de colunas de jornal, de livros ou de quaisquer histórias escritas. Além de ser escritora, Carrie Bradshaw é autora da própria vida. E esse é o livro que todos nós escrevemos, todos os dias.

E mesmo que você não queira e não precise escrever sobre você com palavras digitadas, você escreve sua própria vida com suas escolhas, suas atitudes e suas emoções. A sua própria vida: essa é e será sempre a história mais importante e mais emocionante de ser vivida e de ser experimentada.

 

Olivia Batista de Avelar. Professora de inglês, pós graduada em filosofia, apaixonada por cinema e escritora
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