seg 8/agosto/2022 04:51
Os Alpes Suíços. Ao fundo o magnífico Monte Cervino. Foto: Divulgação

Sobre Homens e Montanhas: Os 3 últimos problemas dos Alpes

Sobre Homens e Montanhas: Os 3 últimos problemas dos Alpes
Marcio do Nascimento Santana
Os heróis do monte Eiger comemorando a vitória sobre o Ogro em 1938. Foto divulgação

Ninguém escala montanhas por razões cientificas. A ciência e usada para arrecadar dinheiro para as expedições, mas você realmente escala para se divertir.

Edmund Hillary

 

Desafio: Os 3 últimos problemas dos Alpes

Esses três últimos problemas dos Alpes são considerados até hoje um dos maiores desafios do montanhismo europeu e um dos maiores do mundo, que consiste  conquistar as faces norte das três montanhas mais difíceis dos Alpes Europeus. Um desafio que coloca a prova a garra e a tenacidade de qualquer alpinista e deve ser realizado no inverno e de preferência em um ano.

Essa história começou na década de 1930 com o alpinista austríaco Fritz Kasparek, que no dia 24 de julho de 1938, junto  com seus companheiros de cordada Ander Heckmair, Ludwig Vorg e Heinrich Harrer fizeram a primeira conquista da face norte do Monte Eiger ( Que significa ogro em alemão) . Um feito inédito, uma vez que esta escalada foi considerada impossível. Reinhold Messner montanhista e historiador alpino descreveu essa conquista como “um momento glorioso na história do montanhismo e uma grande sensação, já que vários alpinistas morreram anteriormente na face”.

Fritz Kasparek também conquistou outras duas faces norte potencialmente difíceis nesse mesmo período. A face norte do Monte Cervino e a face norte do monte Grande Jorasses. Infelizmente esse destemido austríaco morreu em 1954 na Cordilheira dos Andes, caindo para a morte através de uma cornija de neve quebrada quando tentava escalar o pico do Salcantay, no Peru. E para celebrar a sua memória foi lançado por montanhistas europeus o desafio dos 3 últimos problemas dos Alpes ou as  três grandes faces norte dos Alpes ou as grandes vertentes norte dos Alpes.

 

Por que as faces norte?

Simples por que todas as faces norte das montanhas das grandes vertentes dos Alpes, além de difíceis, possuem varias características em comum: Todas possuem mais de 3 mil metros de altura,  todas apresentam em sua face norte maior verticalidade, todas tem o risco constante de deslizamento de pedras e avalanches e  todas possuem maior exposição as intempéries climáticas. Ou seja as faces norte costumam ser geograficamente mais agressivas.

Logo a escalada realizada pela face norte é muito mais segura se tentada durante o inverno, pois ,por uma questão de segurança, o gelo que se forma segura as rochas soltas, tornando a escalada mais segura e estável, sem falar que no inverno o risco de tempestades e menor.

 

A tríade dos Alpes (Um breve resumo) :

Monte Eiger ou Nordwand

Uma montanha mítica do alpinismo mundial, pelo elevado grau de dificuldade de escalar a sua face norte, fez jus ao seu terrível nome, o Ogro.

Eiger o inicio de tudo. Na foto a sua temível face norte. Foto divulgação.

Ele é o primeiro dos três desafios e que se eleva a impressionantes 3.970 metros de altitude  e desde 1935, pelo menos 66 escaladores morreram em tentativas de subida pela vertente norte, o que lhe valeu o nome de Mordwand, significa literalmente “Parede assassina”, um jogo de palavras sobre o nome em alemão Nordwand, que seria parede norte em português.

 

Monte Cervino ou monte Matterhorn 

Possui impressionantes 4.478 metros de altitude e foi uma das ultimas montanhas dos Alpes a serem escaladas. Fora conquistada no final do século 19, porém o seu verdadeiro desafio, assim como nas demais de nossa tríade, está na sua face norte que igualmente ao Eiger, possui um elevado nível técnico de dificuldade. O monte Cervino não possui a fama de assassina assim como seu irmão menor, o Ogro. Ele meus caros leitores seria o segundo desafio.

Monte Cervino ou monte Matterhorn, o segundo grande desafio. Foto divulgação

 

Grande Jorasses

Se eleva majestosamente a 4.208 metros, e completa com honras a trilogia alpina das temíveis faces norte europeias. Assim como seus irmãos também foi conquistado no século 19, porém somente na década de 30 foi definitivamente domado com a conquista de seu cume pela face norte. Embora não tão famosa quanto as outras duas montanhas, o Grande Jorasses é igualmente emblemática.

Grande Jorasses, o terceiro desafio e não menos importante. Foto divulgação.

 

A importância da tríade

No final do século 19 e inicio do século 20 todas as montanhas europeias já tinham praticamente sido exploradas e desbravadas, e com o advento da primeira guerra mundial a competição entre as nações europeias não se limitou apenas aos campos de batalhas, se acirrou mais ainda, e essa rivalidade se estendeu para os esportes. Criando uma verdadeira competição pela supremacia das grandes verticalidades da Europa, restando apenas essas três icônicas faces norte para serem desbravadas, que foram conquistadas em sua maioria por um austríaco, que elevou a escalada em rocha a um outro patamar. Um padrão tão alto a nível técnico que poucos foram capazes de repetir essa façanha. Por esse motivo vemos a importância alpina e historiográfica  de manter esse desafio sempre vivo no coração de cada montanhista. E ele esta mais vivo do que nunca.

Los tres últimos problemas de los Alpes
Revista desnível, leitura obrigatória sobre as 3 vertentes dos Alpes. Foto divulgação.

E acrescento meu caro leitor com uma reflexão. Pois  toda vez que um montanhista resolve escalar qualquer uma dessas três montanhas… ao atingir o cume, fica o chamado para conquistar as outras duas.  Movidos quase que por puro instinto e também pela grande paixão que move todo verdadeiro alpinista.

Para frente e para o alto;

Montanha Brasil.

 

Marcio do Nascimento Santana, Historiador com formação em Arqueologia, Montanhista e membro do Instituto Histórico e Geográfico de Cachoeiro de Itapemirim
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