Trem Noturno para Lisboa: sobre viagens e filmes e livros

Trem Noturno para Lisboa: sobre viagens e filmes e livros
Olivia Batista de Avelar

“Mas quando partimos para entender o interior de alguém? É uma viagem que sempre termina? A alma é um lugar de fatos? Ou os alegados fatos são apenas sombras enganosas de nossas histórias?” Trecho do Livro Trem Noturno para Lisboa, de Pascal Mercier.

O filme Trem Noturno para Lisboa – 2013, Prime Vídeo – nos apresenta uma trama bastante conhecida e, até mesmo, simples: um homem – ou uma mulher – que embarca em uma viagem e, conforme a passante paisagem se altera, os olhos que a observam pela janela também se transformam. O cinema, assim como a literatura, guardam certo candor e fascínio pelas viagens que refletem – na tela e nas páginas – as revoluções internas de seus personagens. Os chamados “Road Movies” pertencem, por definição, a um gênero cinematográfico no qual o(s) personagem principal sai de casa para uma viagem, normalmente alterando a perspectiva de sua vida cotidiana:

“É preciso sair da ilha para ver a ilha. Não nos vemos se não saímos de nós” – escreveu José Saramago.

Não nos vemos, por inteiro, se não nos afastamos daquilo que é o reflexo das pequenas e milhares de vezes repetidas escolhas que fazemos ao longo de uma hora, um dia, uma semana, um mês, uma vida. Não nos vemos se não nos colocamos à exposição de encantos e ultrajes, de encruzilhadas e seduções desconhecidos e nunca por nós encarados. Sim, eu acredito que certas experiências e acontecimentos trágicos e traumatizantes não possuem um lado bom ou um aprendizado a ser adquirido – tragédias são tragédias e não aulas – e o melhor dos cenários para aqueles que, infelizmente, passam por momentos assim é tentarem seguir inteiros, sem se esfarelarem ou se desesperarem pelo restante do caminho e da vida -, mas, apesar de acreditar nisso, também sei que uma grande parte da vida é feita de contingência – coisas que em absoluto são necessárias, mas que também não são impossíveis de acontecer.

O que poderia acontecer, então, com um professor – competente e respeitado – que, em um dia chuvoso e comum, se levanta e vai trabalhar, refazendo os mesmos passos e trejeitos que ele repetia, há muito tempo e todos os dias, pelas ruas frias e indiferentes da cidade de Berna, na Suíça? É assim que conhecemos o personagem principal dessa história, o professor Raimund Gregorius. Com poucos minutos de filme já é possível perceber que aquele homem vem refazendo, quase que mecanicamente, todas as escolhas e decisões que, no passado e quando foram escolhidas pela primeira vez, eram desafiadoras e instigantes. Para Gregorius, não existem mais, em seus dias, grandes saltos de fé, perdas e ganhos, altos e baixos; a vida se tornou, para ele, segura, porém previsível. Estável, porém tediosa. Até que, num dia cinza e chuvoso, a contingência atravessa o caminho e Gregorius salva uma mulher que ameaçava se matar, pulando de uma ponte: eis a situação desnecessária, porém possível de acontecer, atropelando a manhã corriqueira e repetitiva do nosso pacato professor. Depois de ser salva, repentinamente, a mulher desaparece, deixando seu casaco para trás. No bolso da roupa esquecida, o professor Gregorius encontra um livro de um autor português, Amadeu do Prado, e, dentro do livro, um bilhete de trem para Lisboa com data desse mesmo dia. O livro se chama Um Ourives das Palavras e, incapaz de tirar os olhos das páginas escritas, há muitos anos, por esse escritor desconhecido, por esse homem chamado Amadeu que viveu em Portugal e cuja vida parece fascinante aos olhos de Raimund, inesperadamente, nosso personagem principal se encaminha para a estação e, passagem em mãos, toma o trem noturno que, partindo da Suíça, chegará em Lisboa nas primeiras horas da manhã do dia seguinte. Raimund Gregorius alterou o curso da história porque ousou fazer algo que estava completamente fora de seu plano de repetir os planos que, um dia, já haviam funcionado. Porque respondeu à contingência – ter salvado uma mulher desconhecida – como quem salta de um trampolim para dentro de um abismo. Porque, por um pequeno instante de coragem respondeu, com ação e à altura, àquilo que ele não queria e nem esperava que tivesse acontecido com ele – mas que aconteceu.

Todo Road Movie – filme de estrada – mostra uma viagem, um passeio, um trajeto, que muda a paisagem externa que passa pelos personagens para ilustrar sua transformação interna, íntima, e pessoal. Porém, a mudança proposta por esse tipo de história não depende, diretamente, dos fatores externos da jornada que se desenvolve: não importa se o trem partiu da Suíça – ele poderia estar partindo de Campos dos Goytacazes, Lavras, da Serra ou de Botucatu. Menos importante ainda é a cidade de destino: Lisboa ou São Tomé das letras. Frankfurt ou Guarapari. Itú ou São João del Rei – não importa. O que coloca um Road Movie em movimento não são as rodas do veículo – qualquer que seja ele.

O que coloca um filme, um livro, uma vida em movimento é a contingência. É a resposta que escolhemos dar – não com palavras, mas com ações – para a vida, quando ela nos atira ao colo aquilo que não era necessário, mas que também não era impossível.

Sem esse salto de fé, sem a ousadia de não saber e, mesmo assim, fazer, nenhuma viagem dos filmes teria sequer sua cena de partida, nenhum livro passaria da página dois e nenhuma vida seria boa e, ao mesmo tempo, trágica. O que as viagens nas histórias querem mostrar é que a mudança já aconteceu: ela é o momento da partida. Todos os minutos de filme e as páginas restantes de um livro estão ali como as imagens que vemos quando estamos sentados à janela de um trem – elas nos levarão ao ponto de chegada que é, simplesmente, entender o como e o porquê da mudança interior que gerou nosso primeiro passo. Alcançar a linha de chegada, que é nosso lugar de destino, é elaborar toda essa trajetória para que ela faça sentido. O objetivo de um Road Movie é o objetivo da vida: traçar uma história, enquanto ela já está em curso, para que tudo que experimentamos faça sentido. Mesmo que essa jornada tenha começado não se sabe muito bem quando nem como, mas será durante todo o percurso que estaremos, sempre, tentando entender e construir o porquê.

 

Olivia Batista de Avelar. Professora de inglês, pós graduada em filosofia, apaixonada por cinema e escritora
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