Documentário O silêncio das inocentes – e a violência contra a mulher

Documentário O silêncio das inocentes – e a violência contra a mulher
Olivia Batista de Avelar

Vivemos uma epidemia de violência contra a mulher. No Brasil, os números de vítimas de violência doméstica já eram altos e alarmantes antes da pandemia de COVID 19 e, desde o ano passado, esses números praticamente dobraram. Várias pesquisas apontam como uma das causas desse crescimento os períodos de isolamento social que vivemos, tanto no ano passado como esse ano. Segundo a entidade As Justiceiras – projeto criado para o acolhimento de mulheres vítimas de violência doméstica em todo o país – 35% das mulheres atendidas pelas voluntárias moram com o suspeito. Em 51% dos casos, o agressor é o atual companheiro e em 48%, um ex-namorado ou marido.

Impossibilitadas de saírem de casa, os dias de distanciamento social que visavam diminuir a propagação do Corona vírus deixaram essas mulheres ainda mais expostas à violência doméstica.

Tristemente, mais uma mulher foi morta pelo companheiro na semana passada, em Cachoeiro de Itapemirim, e seu caso ganhou visibilidade e gerou indignação em nossa cidade. A violência contra mulher é um assunto de extrema urgência e precisa ser pauta diária da sociedade e, principalmente, dos órgãos do poder público.

O silêncio das Inocentes – 2010, disponível no YouTube – foi dirigido por Ique Gazzola e, através de vários depoimentos, apresenta o cotidiano de vítimas de violência doméstica. O documentário acompanha o processo de aplicação da Lei nº 11.340/2006, popularmente conhecida como Lei Maria da Penha, considerada uma das três leis mais completas do mundo no gênero. Além das próprias vítimas, autoridades e especialistas sobre o tema também demonstram de que forma a sociedade vive e encara essa realidade. Porém, são os depoimentos das próprias vítimas que constroem o retrato mais fiel, real e doloroso desses crimes.

A violência contra a mulher é a ponta mais brutal de toda uma organização social, econômica e cultural que, em 2021, absurdamente, ainda trata as mulheres – seus corpos e suas vidas – como subordinados à força e à vontade dos homens.

Infelizmente, é muito recorrente para a população em geral – nós, cidadãos comuns que não trabalhamos diretamente com os casos de violência, como fazem os advogados ou delegados – se sentir impotente diante de uma violência que se mostra fora de controle, diante de uma situação que parece estar tão entranhada na sociedade que não nos dá sinal algum de que os números de casos vão diminuir ou de que a atuação da polícia será mais eficaz em prevenir e de que o poder judiciário será mais efetivo em punir os culpados. Temos, também, a falsa sensação de que a violência contra a mulher é sempre um caso distante, apenas uma notícia de jornal que nos causa revolta, mas, somente, uma revolta momentânea. Histórias que geram alguns minutos de conversa em família, mas que, no dia seguinte, nos esquecemos delas.

A vida, o trabalho, as obrigações, os sonhos de consumo: são muitas as coisas que exigem tanto da nossa atenção e quase toda a nossa energia. Não pretendo dizer que a realidade direta e pessoal e as demandas da vida cotidiana não são importantes, pois elas são. Também não pretendo afirmar que devemos abdicar da esfera privada e dedicarmos total atenção aos problemas sociais que enfrentamos – existem esferas públicas que são as responsáveis devidas por tais ações. O que acho pertinente dizer é que somos, todos nós, indivíduos, porém não podemos nos esquecer de que vivemos e somos parte de uma sociedade – nada do que fazemos ou do que deixamos de fazer está completamente dissociado do todo: separados, construímos uma profusão de organismos independentes, mas inarticulados, sem força e sem voz.

Por isso, é quando estamos juntos, informados e preocupados, quando somos fiscalizadores e atuantes é que, ao mesmo tempo que mantemos nossa individualidade e nossa vida privada, também fazemos com que o corpo do coletivo e do social se fortaleça, progrida e se cure de suas mazelas mais abomináveis.

As mulheres estão morrendo. Todos os dias, todas as horas, nesse exato minuto. Enquanto acharmos que esse problema não nos afeta, enquanto acreditarmos que se trata de uma questão pontual e não abrangente, enquanto insistirmos em não pensar esse problema de forma coletiva, como algo que aflige e violenta o corpo social como um todo, enquanto não dermos à nossa indignação mais do que os dois minutos que levamos para escrevermos um post de rede social ou encaminharmos uma mensagem de luto no WhatsApp, enquanto tudo isso não mudar seremos, além de indivíduos, individualistas. Individualistas e omissos que assistem a barbárie e a degradação da sociedade da qual fazemos parte, mas que preferimos pensar que como não foi em nossa casa, não temos nada a ver com isso.

Os agressores, os estupradores e os assassinos de mulheres agradecem à todas as pessoas que deitam a cabeça no travesseiro, noite após noite, e pensam: isso não é problema meu.

 

Assista ao documentário abaixo

 

 

Olivia Batista de Avelar. Professora de inglês, pós graduada em filosofia, apaixonada por cinema e escritora