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Filme Anna Karenina – E a Insanidade Coletiva de “Cancelar” os Russos

olivia-15-08-2023
Olivia Batista de Avelar

“Muitas vezes penso que os homens não entendem o que é nobre e o que é ignorante, embora sempre falem sobre isso.”
Leo Tolstói – no livro Anna Karenina

 

Conta-se que Léo Tolstói – escritor russo que nasceu em 1828 e morreu em 1910 – assistiu, em determinado momento de sua vida, uma moça que se suicidou atirando-se debaixo de um trem. O impacto daquela visão e as perguntas e emoções que se sucederam àquele dia de sua vida o acompanharam por muitos anos. “Que tipo de desespero poderia levar uma mulher jovem e bonita a se atirar para morte de uma forma tão violenta e tão pública?”, perguntava-se o autor. Foi desse fato real de sua vida que Tolstói construiu a história de Anna Karenina – conhecida como a mais famosa e trágica adúltera da literatura mundial.

O filme Anna Karenina – 2012, disponível no Amazon Prime – foi baseado no livro de mesmo nome, lançado em 1878. A obra do diretor Joe Wright homenageia não só a um livro e um autor clássicos da literatura russa, como também alicerça toda essa trama poderosa e avassaladora sobre uma abordagem visual que nos remete ao universo do teatro: muitas das belíssimas cenas – e todas as minhas preferidas desse filme – apresentam passagens da história sobre um palco, entre as coxias do camarim, expondo as entranhas do maquinário por trás das cortinas, iluminando os personagens de forma dramática como se eles tivessem, sobre seus rostos, um refletor cênico próprio das montagens teatrais. Deixo aqui uma opinião, pois não posso confirmar o que vou dizer, mas acredito que tal escolha não foi mero capricho de roteiro ou de direção: o teatro e a ação de interpretar ocidentais modernas foram transformadas e fortemente moldadas pela influência e relevância de dramaturgos e diretores russos. Assim como a literatura de Tolstói teve grande impacto sobre os livros que passaram a usar o monólogo interior como forma de compor as personagens, o dramaturgo Tchekhóv e o diretor e ator de teatro Constantin Stanislavski deram os primeiros passos para o que hoje conhecemos a chamamos de atuação.

Assistir ao filme Anna Kerenina é desfrutar de duas horas de absoluto encantamento, belíssimas cenas, personagens humanas em todos os seus amores e contradições e uma possibilidade acessível de conhecer e se encantar com uma obra monumental da literatura russa e, também, com toda a sua relevância e impacto sobre as artes cênicas ocidentais em geral.

E é sob alguma comoção que sugiro que, quem tiver interesse e possibilidade, assista a esse filme. E também a outros muitos que foram inspirados em romances, contos e peças teatrais de autores russos. E, como é meu costume, vou deixar bem claro aqui porque faço esse convite.

Desde o início da guerra que vem sendo conduzida pelo governo russo contra a Ucrânia, temos assistido a inúmeras demonstrações de apoio ao povo ucraniano e, também, falas bastante duras e de repúdio aos ataques comandados pelo presidente russo, Vladimir Putin. É compreensível que, em todo mundo, líderes de nações e também pessoas comuns manifestem sua indignação contra esse conflito bélico em curso há mais de três meses e que já deixou muitos mortos, refugiados e alterações permanentes no cenário da geopolítica internacional e da economia global. Inclusive, há algumas semanas, escrevi para essa coluna sobre o filme Anton – A amizade e as Guerras e tentei refletir sobre como para além dos discursos e das estatísticas, a guerra devasta principalmente a vida dos civis – homens e mulheres como eu e você – que muitas vezes perdem não só suas casas, carros, empregos e entes queridos, mas toda sua referência psicológica e emocional ligadas ao país e região que consideram seu lar e se veem atirados, sem paradeiro certo, a uma longa e humilhante fila para serem aceitos e incorporados à outra nação, o que os abriga a recomeçar uma nova vida sem nenhuma garantia de futuro ou possibilidade de retorno – visto que essa guerra ainda está acontecendo e não apresenta sinais de um encerramento via acordo diplomático.

Dito tudo isso, proponho a seguinte pergunta: o que a música, a culinária, a literatura, o teatro, enfim, a cultura russa tem a ver com esse confronto atual? Não vou me alongar, a resposta é: nada.

Tristemente, no afã de demonstrar apoio à Ucrânia e repreender a invasão russa, vários setores da sociedade têm atacado um alvo fácil, frágil e que nada tem a ver com todo esse imbróglio geopolítico e econômico: as artes.

Seminários sobre autores russos foram cancelados ao redor do mundo. Bandas russas foram excluídas de concursos musicais na Europa. Pratos típicos de sua culinária foram retirados do cardápio de restaurantes paulistanos em um absurdo, ridículo e inútil sinal de reprovação do confronto. Todos os países do mundo que possuírem os meios de imporem seu poder sobre territórios considerados mais fracos irão fazê-lo. A Rússia foi e poderá ser, novamente, uma potência imperialista, assim como o Império Britânico – que teve seu auge no final do século 19 e início do século 20 – também se expandiu e consolidou poder dessa forma, ou como os Estados Unidos o são, desde o final da segunda guerra e até hoje e assim como a China aparenta que se consolidará, em breve, como a maior potência econômica mundial, arregimentando aliados e ameaçando países considerados entraves para sua expansão e crescimento.

Quando “cancelamos” a contribuição da arte de qualquer país por motivos de guerra somos nós quem perdemos – é a humanidade quem sai perdendo.

A literatura russa produziu e ainda produz obras de imenso valor e entendimento sobre o ser humano e sobre nossos tortuosos caminhos sobre essa terra de dor, fome, poder, guerras e também de amor, beleza, compaixão e fé. Por mais paradoxal que possa parecer, ler autores russos, assistir filmes baseados em suas obras, nos oferece uma profunda e rica visão sobre a própria natureza humana que se sustenta sobre os pilares da guerra e da exploração, mas também de crença no divino e em valores morais que construímos enquanto humanidade. Durante séculos, autores russos mergulharam profundamente nas entranhas do ser humano, escrevendo sobre como se constroem as pessoas que vivem em países devastados pela violência e pelas disputas de poder e sobre como nos aguentamos de pé sendo completamente fracos diante de forças tão onipotentes e assustadoras.

A cultura russa – e de cada um dos povos do mundo – é essencial para todos nós. Ela é um valioso instrumento de elevação humana, de espanto artístico, da capacidade de criação. “Cancelar” séculos da mais fina expressão humana por causa de uma guerra só escancara a inclinação ditatorial e a insensibilidade dos anônimos e desprovidos de poder. E é exatamente aí que esses “canceladores” mais se aproximam dos déspotas que exercem cargos políticos, em muitos lugares do mundo. Exercendo seu minúsculo poder indigente e invisível, falando besteiras na internet, apoiando atores políticos que ignoram sua existência, caricaturando um povo, atraindo likes e visualizações enquanto tentam apagar a relevância de autores que nunca leram estão atacando a arte, clara e obviamente, porque não tem o poder para atacar aos homens. Pois se o tivessem, eu te pergunto, será que não o fariam?

Protegidos pela distância, os conflitos que assistimos tem o poder de nos sensibilizar ou de fazer com que alguns repitam, amiúde e em pequeníssima escala, os mesmos jogos que os senhores da guerra encenam no palco da vida real.

A sensibilização virá através do contato e da apreciação reverente da belíssima literatura produzida pelo mesmo país que também produz guerra, violência e morte. A emulação do poder despótico através do “cancelamento” também reflete uma das faces da nossa humanidade que tão genialmente está presente e é explorada pela literatura russa – o breu de que parte da alma humana é feita. Luz e sombra. Arte e guerra. Cancelar a arte russa é não admirar nossa parcela mais luminosa e nos afundarmos, somente, no caos, na escuridão, na barbárie e na ausência de encantamento e de esperança. O cancelamento das expressões artísticas é, também e em pequeníssimo porte, uma expressão do apagamento e dessa outra forma obscura de arte: a arte da guerra.

 

Olivia Batista de Avelar. Professora de inglês, pós graduada em filosofia, apaixonada por cinema e escritora

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