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Filme: O Serviço de entregas da Kiki e as personagens femininas de Hayao Miyazaki

olivia-15-08-2023
Olivia Batista de Avelar

‘’Muitos dos meus filmes têm fortes protagonistas femininas, corajosas, meninas autossuficientes que não pensariam duas vezes antes de lutar pelo que acreditam com todo o seu coração. Elas precisarão de um amigo ou um defensor, mas nunca um salvador.’’ Hayao Miyazaki

 

Já parou pra pensar que a forma como vemos as mulheres – como achamos que é ser uma menina e, depois, uma mulher – molda não só a maneira como entendemos as pessoas do sexo feminino, mas sim a forma como vemos o mundo? Quando nós, mulheres, nos adequamos a tudo aquilo que a sociedade diz que somos acabamos estreitando nossos horizontes e somos condicionadas a pensar, agir e, principalmente, a sentir exatamente da forma que nos impõem que sejamos. Por sua vez, os homens colocam as mulheres em lugares restritos em sua vida e no mundo como o enxergam, normalizam as restrições e violências que sofremos e também se beneficiam da posição confortável que ocupam com relação a nós.

A cultura popular expressa nas músicas, nos livros, nos filmes e na forma como falamos, como nos relacionamos em sociedade, reforçam esses papéis limitadores: meninas não são independentes, meninas são frágeis e precisam da coragem de um rapaz.

Precisam ser salvas por eles. Precisam ser especiais para serem escolhidas por um homem e serem amadas por eles. Falando especificamente de filmes, já vimos essa história incontáveis vezes: a jovem menina sofre, passa por vários problemas e dificuldades, mas, no final, tudo vale a pena porque ela é resgatada por um homem (geralmente um príncipe) que se casará com ela e fim. Infelizmente, esse breve exemplo que usei resume quase todas as histórias infantis que conhecemos (e a grande maioria das histórias para adultos também). E aqui cabe uma pergunta: com tantas possibilidades que uma criança pode ter na vida, porque limitamos e estreitamos tanto sua imaginação e suas possibilidades de sonhar contando a mesmíssima história em diferentes personagens? Por que fazem tanto sucesso os contos de fadas para meninas e as histórias de amor (com algumas pequenas variações) para as mulheres adultas? Por que vivemos em uma sociedade em que as mulheres aprendem, desde pequenas, que seu maior e mais importante sonho é o de se sentir uma princesa e de ser escolhida pelo homem dos seus sonhos e se casar com ele? Bem, o cineasta japonês Hayao Miyazaki – que disse, em uma entrevista, a fala que abre essa coluna – discorda desse tipo de histórias e deixa isso bem claro em seus filmes.

O serviço de entregas da Kiki – 1989, disponível na Netflix – é uma animação que começa de um jeito que eu achei lindo e muito emocionante: a personagem principal, uma jovem bruxa de 13 anos chamada Kiki, decide que já está pronta para algo muito importante. Antes mesmo que possamos entender do que se trata essa decisão, já podemos perceber que essa história e essa jovem são muito diferentes da grande maioria dos filmes e animações que estamos bastante acostumados a assistir. A atitude corajosa e ativa de Kiki é um grande contraste com praticamente todas as histórias de princesas que conhecemos: ela toma uma decisão e age para conseguir o que quer com menos de cinco minutos de filme. E aqui cabe uma pequena explicação: todas as histórias de princesa têm jovens moças como protagonistas dessas histórias, mas suas atitudes são, em quase 100% das vezes, passivas e as personagens pensam, agem e sentem sempre visando a serem aceitas, bem vistas e, sobretudo, amadas. Kiki não é somente a personagem que protagoniza uma história, mas sim uma personagem que é protagonista de sua própria vida dentro dessa história. Kiki se vê como prioridade.

E isso acontece porque é ela quem decide o que fazer, é ela que age para alcançar seus sonhos, é ela que erra e fica triste no meio do caminho e também é ela quem se alegra quando percebe que está aprendendo com seus erros e acertos.

Ao longo da história, Kiki faz muitos amigos, mas também conhece pessoas de quem não gosta e que não gostam dela – e ela aprende a lidar com isso, não passa a buscar a aprovação dos outros porque Kiki não se sente imperfeita e inadequada, ela não acha que precisa abrir mão de seus objetivos para receber afeto e aceitação dos outros. Logo no início da história, Kiki começa a receber ajuda de uma mulher adulta – que está grávida – e que se encanta pela inteligência e pela simpatia da menina. E aqui temos outra grande diferença maravilhosa entre o filme do cineasta japonês e as animações que são muito mais famosas em nosso país: uma personagem mulher e adulta que tem uma enorme relevância na trama e que não tem inveja da juventude ou da beleza de Kiki, a nossa protagonista. Ela não quer roubar da jovem o príncipe “perfeito” e também não mora em um castelo assombrado onde prepara poções e venenos. A mulher é dona de uma padaria, trabalha todos os dias e incentiva Kiki, gentilmente, ao oferecer um trabalho que vai ajudar a menina a pagar pelo quarto onde vai dormir e pelas suas compras mensais. Ou seja, além de uma protagonista ativa, Miyazaki opta por colocar em suas histórias a cooperação e não a competição entre as personagens femininas.

Como eu disse lá no início do texto, a forma como todos nós vemos esses papéis estreitos que nos impõem a todos – mas, principalmente, às mulheres – molda toda a nossa visão de mundo e a forma como sentimos, pensamos e agimos.

Impacta todas as áreas das nossas vidas. Se transforma naquilo que, consequentemente, acreditamos que a vida é. E como seriam a sociedade, os homens, as mulheres, as crianças, nós mesmos, nossos sentimentos e nossas vidas se a grande maioria das músicas, livros e filmes contassem, desde sempre, histórias de mulheres assim, como as personagens de Miyazaki? Se desde quando se começaram a cantar músicas e a escrever e contar histórias e a serem lançados filmes – todas essas expressões e espelhos da nossa realidade e dos nossos sonhos – as personagens mulheres fossem altivas, corajosas e muito dispostas a desbravar o mundo, como enxergaríamos a vida, a sociedade e os lugares que queremos alcançar? Como cresceriam as meninas se elas se importassem menos com o amor de um príncipe e mais com suas próprias aventuras? Como seriam as mulheres adultas se não vissem as outras mulheres como bruxas ou vilãs, mas sim como fontes de apoio e companheirismo?

Como seriam os sonhos de todas as mulheres se eles fossem, desde os séculos passados, encorajados a serem ilimitados, fortes e independentes – como os sonhos de Kiki?

Existem muitos filmes, muitas animações e muitas histórias sendo contadas a todo instante. Muitos deles reforçam padrões e nos obrigam a repetir e amar uma ideia sobre as meninas e as mulheres que só existe se for forçada, cotidianamente, à custa de muitas personalidades perdidas e de identidades despedaças. Esse tipo de histórias não deixará de existir porque é útil e mantém um estado de coisas que gera lucro sobre a dor, o desconforto e a frustração de uma sociedade inteira de mulheres que se podam para poder caber em papéis que são pequenos demais para elas. E nós, mulheres, não obedecemos a esses papéis por uma escolha pessoal, pois, assim como as personagens princesas nos filmes que tantas vezes assistimos, seguimos um roteiro pronto que foi e é escrito e reescrito há milênios. Àquelas que se anulam e vestem a personagem de mentira, lhes caberá, também, uma vida de mentira, de silêncio recompensado com flores e elogios vazios e que em nada vão diminuir a angustia de quem vive uma vida anulada. Àquelas que não aceitam um roteiro pronto e decidem escrever sua própria história… bem, para essas, o mundo não entrega flores, porque o mundo fora de nós também segue um roteiro pronto e precisamos de muitas mulheres que rejeitem a personagem e também de muitos homens que as admire assim, verdadeiras, para que o tudo comece a mudar.

Existem muitas histórias que podem nos encantar e nos permitir imaginar um mundo mais autêntico – um mundo de vir a ser. Histórias que sacodem nossas ideias e que nos querem fazer perguntas. O filme O serviço de entregas da Kiki faz seu belíssimo trabalho, pois ele nos entrega tudo aquilo que precisamos (mesmo que algumas mulheres ainda não entendam isso). Esse filme nos entrega a possibilidade de nos perguntarmos: e se a minha vida fosse mais livre, como a vida das personagens femininas nesse filme? E se eu recebesse ajuda quando preciso? E se eu fosse encorajada a ser eu mesma, como Kiki foi, por todos à sua volta?

E se eu fosse incentivada não a lutar pelo amor e pelos sonhos de outras pessoas, mas para pensar e agir por aquilo que eu quero?

Kiki tomou uma decisão e, aos 13 anos, foi em busca de viver o que ela desejava de todo seu coração – e isso não incluía um príncipe, um casamento ou um amor romântico, afinal, Kiki só tem 13 anos e ela queria ver o mundo e conhecer a si mesma. Será que temos essa mesma chance? Ou será que precisamos de um mundo diferente, onde, fora da tela, possamos começar a sonhar com essa possibilidade. Como eu disse, esse é um filme que nos entrega muitas perguntas. Precisamos, nós mesmas, encontrarmos as respostas.

 

Olivia Batista de Avelar. Professora de inglês, pós graduada em filosofia, apaixonada por cinema e escritora
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