seg 8/agosto/2022 05:11

Paulo Thiengo, a voz que clama no deserto em defesa das ferrovias

Paulo Thiengo, a voz que clama no deserto em defesa das ferrovias
Anete Lacerda

O engenheiro agrônomo e comerciante Paulo Henrique Thiengo é bastante conhecido em Cachoeiro de Itapemirim pela sua defesa ardorosa da preservação da memória ferroviária e das ferrovias que cortam o Espírito Santo pela sua importância social e econômica para toda a região.

Já se afastou de movimentos importantes dos quais participou por décadas, preocupado com o fato de suas falas duras e incisivas provocarem retaliações a essas organizações.

Abriu mão de projetos essenciais, mas apesar de toda a pressão, não é homem de meias palavras quando o que está em jogo é a destruição da memória sobre trilhos, que ainda poderiam continuar gerando riquezas nas regiões cortadas por eles, conforme acredita e defende sempre.

Admite que o desvio ferroviário e a retirada do trem do centro de Cachoeiro, feito ainda na década de 90 pelo então prefeito Theodorico Ferraço, foi benéfico para o município.

Mas considera a retirada dos trilhos um ponto negativo, já que a ferrovia foi implantada em 1903 para impulsionar o desenvolvimento da região, e poderia continuar contribuindo para esse propósito.

“Com planejamento e boa vontade esses trilhos poderiam ter sido usados para o transporte coletivo, tipo os veículos leves sobre trilhos (VLT’s), os bondes modernos, a exemplo do que acontece em várias cidades do Brasil e muitos países mundo afora”, pontua.

Em sua opinião, isso evitaria o trânsito caótico que se vê em Cachoeiro. “Hoje o trânsito é caótico, mas não seria se fosse pensado no transporte coletivo de massa aproveitando os trilhos do trem”, enfatiza.

Outro ponto que Paulo Henrique Thiengo critica com muita veemência é o frequente roubo de trilhos, segundo ele, sob as bênçãos, descaso e indiferença da VLI, concessionária contratada pela União para a guarda e proteção das ferrovias do país.

Foto: Alessandro de Paula

“Sou membro fundador de uma  Organização não Governamental (ONG) que trabalha pela preservação da memória ferroviária, mas saí justamente por causa da VLI, para que a instituição não fosse prejudicada pelas minhas críticas”, revela.

Tudo porque, segundo ele, a concessionária não cuida e nem deixa que ninguém, voluntariamente, cuide dos trechos cortados pela linha férrea.

“Eles abandonaram tudo há mais de cinco anos, não fiscalizam nada, como exige o contrato de concessão, e mesmo assim não nos dão liberdade para fazer nada”, critica.

E Paulo Thiengo vai mais além. Diz que a concessionária não recebe, mas pagou para uso da malha, como nas rodovias,  e que a concessionária foi nitidamente negligente ao abandonar todo este patrimônio vazio, que rapidamente foi ocupado pelos ladrões, tendo em vista o alto valor do aço.

“Falar com a VLI sobre uso e aproveitamento da ferrovia é perda de tempo. Eles não estão nem aí”, garante. Quanto aos gestores públicos, diz que a maioria dos prefeitos apoia o projeto de recuperação da ferrovia, mas para alguns, a retirada dos trilhos é uma oportunidade de abrir ruas e avenidas, ganhando pontos junto ao eleitorado massacrado por décadas de campanha contra os trilhos.

Mesmo que não faça mais parte de nenhuma organização em defesa da memória ferroviária no país, a indignação ainda move Paulo Thiengo, que lamenta o que considera desmonte que vem sendo feito da malha ferroviária em todo o país, fato que se repete no Espírito Santo, segundo ele.

“As ferrovias têm enorme potencial econômico para os municípios cortados por ela. Recuperadas, funcionariam como um corredor de desenvolvimento paralelo ao que está sendo criado no litoral, garantindo a movimentação de produtos, serviços e pessoas entre este municípios, de Campos até Vitória”, enfatiza.

Thiengo destaca também o potencial turístico e para o transporte regional (o trem sairia de dentro de Vitória e passaria pela região serrana, Cachoeiro, indo até Campos).

O engenheiro defende ainda a manutenção da antiga ferrovia que, interligada à nova em três locais (Viana, Cobiça e Ururaí), permitiria manter e oferecer uma logística que considera fantástica a empresas que serão atraídas pelo Porto Central.

Isso permitiria, segundo Thiengo,  a existência de dois distritos industriais (São Joaquim e Pacotuba) até com aduana, possibilitando o recebimento e despacho até de cargas internacionais entre o Estado e o leste de MG.

E faz mais uma acusação. Que vê no abandono e falta de interesse da fiscalização – ANTT e DNIT – um “método”, visando inviabilizar a ferrovia, que ficaria definitivamente irrecuperável.

Thiengo entende que deixa-se chegar num estado tal que, após uma “vistoria” destes órgãos, vão informar que “infelizmente a ferrovia chegou numa situação que não há mais recuperação e ‘lamentamos’ ter de erradicá-la”.

E vai mais além: “ a população, prefeitos e empresários parecem não ter percebido isto ainda. Estou à disposição para discutir e responder todos os questionamentos. Nunca participei de reuniões para discutirem esse assunto porque elas acontecem sempre durante a semana, quando eu e outras pessoas interessadas e que poderiam somar nessa discussão estão trabalhando”.

 

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