Sobre homens e montanhas: O Itabira e o tombamento da via de 1947

Sobre homens e montanhas: O Itabira e o tombamento da via de 1947
Marcio do Nascimento Santana
No topo do gigante capixaba, a escalada que colocou Cachoeiro no cenário da escalada nacional

 

A função do Historiador é lembrar a sociedade daquilo que ela quer esquecer.  Peter Burke

 

A Via de Escalada de 1947 e a importância do Tombamento

Como muitos sabem, sou Montanhista, por amor e vocação, e como todo bom montanhista procuro ao máximo ter um relacionamento saudável com esses incríveis e poderosos gigantes de granito e ao mesmo tempo tão frágeis.

Mas também sou um Historiador e seria uma grande omissão de minha parte se não confeccionasse esse texto. Porém, mais que um texto, é uma carta, um pedido de ajuda ao poder público, em nome de um dos maiores Patrimônios Culturais de Cachoeiro de Itapemirim, a primeira via de escalada do Itabira e a primeira do Estado, a desafiadora Via da Conquista de 1947, via essa desbravada por cinco bravos escaladores, do CERJ (Centro Excurcionista do Rio de Janeiro).

São eles: Índio do Brasil Luz, Sílvio Joaquim Mendes, Reinaldo Behnken, Júlio Maria de Freitas e Reinaldo Santos, heróis que se arriscaram durante 19 dias, em um exaustivo trabalho nos paredões e abismos do nosso colosso de granito, para que o cume fosse conquistado pela primeira vez. O trabalho foi hercúleo e rendeu bons frutos, além de terem vencido a primeira via de escalada do Espirito Santo, criaram aquela que seria por mais de 40 anos a via de escalada mais difícil do Brasil. Os nossos heróis soltaram fogos de artifício no cume e no centro de nossa cidade, pessoas comemoravam, inclusive o apito da antiga fábrica de tecidos não parava de tocar em homenagem a esses guerreiros da altura.

 

Via de 1947, a primeira via de escalada do Espírito Santo e a mais difícil

Porém, vale a pena destacar que nesse ano o Brasil estava engatinhando no montanhismo, mas já começava a contar com grandiosas conquistas, como essa do Pico do Itabira, mesmo com equipamentos primitivos e técnicas implementadas com sangue suor e lágrimas. As escaladas difíceis e extenuantes se tornavam verdadeiras epopeias. Sim amigo leitor, domar esse gigante chamado Itabira não foi fácil. Essa é uma das montanhas mais emblemáticas e incríveis do Brasil. E é considerada até hoje uma montanha difícil de ser superada. Mas pela ausência de uma proteção patrimonial passa a ser alvo de pessoas completamente leigas e despreparadas. Em especial essa Via Histórica que já sofreu uma grampeação irregular em um pequeno trecho ao longo de seu percurso vertical.

A Via foi confeccionada com o uso dos já arcaicos e em desuso, grampos em “L” ou simplesmente “Pés de Galinha” e também foi utilizada uma escada de cabo de aço e degraus de madeiras além de algumas cunhas de madeira. Por sua construção tão complexa e trabalhosa, fez dela um via clássica e de altíssimo padrão técnico de dificuldade, pois até o atual momento foram poucos os escaladores que conseguiram repeti la. E ainda hoje ela se tornou uma das Vias mais citadas nas literaturas de escaladas de todo o Brasil e de inúmeros centros de excurcionismo como o CERJ, UNICERJ, FEMESP, ACE…e outros.

É imperativo que Cachoeiro de Itapemirim, promova o Tombamento Patrimonial desse legado, dessa Via que tanto mexe com a imaginação dos Montanhistas, e também dos capixabas. Afinal uma vez conquistado o magnifico Pico do Itabira, os olhos do Brasil se voltaram para nossa cidade, fazendo dela uma referência do montanhismo capixaba, a Meca da escalada do Espirito Santo, e temos que ser bons moradores e cuidar zelosamente de nossa casa e valorizar nossa própria História, honrando a memória daqueles que desafiaram a montanha por nós cachoeirenses.

Tombamento Patrimonial Brasileiro

meu pedido de ajuda às autoridades  competentes é justificado pela importância histórica e ambiental dessa icônica montanha, pois o tombamento patrimonial brasileiro é o pioneiro nas Américas, onde nos tornamos o primeiro Pais a ter esse importante instrumento legal de proteção  do patrimônio cultural , e pode ser feito pela administração federal, estadual e municipal. Em âmbito federal, o tombamento foi instituído pelo Decreto Lei nº 25,de 30 de novembro de 1937,e seus preceitos fundamentais se mantêm atuais e em uso até os nossos dias. E em âmbito municipal as luzes da Lei municipal 5484/2003. E esse gesto de preservação colocaria Cachoeiro novamente no pioneirismo do montanhismo capixaba.

A nossa Constituição em seu artigo 216consolida a importância do Tombamento Patrimonial. Logo, diante de toda a legislação vigente, não há como o poder publico se eximir desse nobre dever.

 

Montanhismo: Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade

E para reforçar ainda mais o meu apelo, sobre a importância do Tombamento dessa Via, destaco que o próprio montanhismo  passou a ser considerado no dia internacional das montanhas, 11 de dezembro de 2019,  Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade pela Unesco. A declaração foi feita durante a décima quarta sessão do Comitê Intergovernamental em Bogotá. E essa foi a primeira vez que o Comitê se reuniu na América Latina.

Alguns pontos citados pela Unesco que ajudaram o montanhismo a se tornar um Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade:

  • O alpinismo requer a posse de conhecimento ambiental sobre o ambiente natural das rotas de escalada, mudanças nas condições climáticas e o risco de desastres naturais.
  • Seus praticantes compartilham uma cultura, que integra o conhecimento do ambiente de alta montanha como a história da prática de escalada e seus valores.
  • O apego de seus praticantes à elegância da escalada, a contemplação da beleza das paisagens e a íntima relação com a natureza.
  • A prática do alpinismo implica a adoção de princípios éticos que se baseiam no compromisso individual de cada alpinista de não deixar vestígios para trás e no dever de fornecer ajuda aos outros alpinistas.

 

O Apelo 

Prefeitura Municipal, Governo do Estado e Ministério Publico Estadual:

Uso o presente instrumento para interceder a favor desse legado  de nossa cidade, e também do nosso Estado, provocando esse ato de reconhecimento de valor histórico, arqueológico e cultural…Transformando essa icônica Via de Escalada em patrimônio oficial público e instituindo um regime jurídico especial de propriedade, levando em conta sua função social e preservando a cédula de identidade de nossa comunidade, e assim, garantir o respeito à memória do local e a manutenção da qualidade de vida

Para frente e para o alto;

Montanha Brasil.

Marcio do Nascimento Santana, Historiador com formação em Arqueologia, Montanhista e membro do Instituto Histórico e Geográfico de Cachoeiro de Itapemirim
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