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Clube de Leitoras: “A fome também é professora”. Mas como se comportam seus alunos?

olivia-15-08-2023
Olivia Batista de Avelar

A professora fome diz: “O total de brasileiros com fome atualmente ultrapassou a marca de 33 milhões de pessoas de novembro de 2021 a abril de 2022. Nesse período, cresceu em 14 milhões o número de pessoas sem o que comer todos os dias, o que fez com que o país retomasse o patamar da década de 1990, ou seja, retrocedendo 30 anos.” Um de seus alunos, um menino branco e bem vestido, levanta a mão e pede a palavra: “Ah professora, não venha com essa! Esse é o resultado do “fica em casa” durante a pandemia!” A professora fome prossegue: “A fome é consequência de uma série de erros de políticas públicas e de destruição de políticas públicas e esse desmonte foi agravado e não gerado pela pandemia de COVID 19…” Antes que a professora concluísse sua fala, uma menina a interrompe, com o celular em mãos, parece que está gravando toda a conversa. Ela diz: “Foi feito um experimento com 100 pessoas que recebiam dinheiro do estado sem precisar trabalhar. Nenhuma delas quis abrir mão do dinheiro fácil e trocar o auxílio por um emprego. Essas pessoas gostam de se encostar no estado! De viver as custas de quem trabalha! Querem um estado paternalista!”

A sala de aula não está mais em silêncio. Os alunos resmungam e conversam entre si. Sabendo que não está sendo ouvida, a fome prossegue: “Assim que assumiu o Palácio do Planalto, em janeiro de 2019, o atual presidente extinguiu o Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea), que tinha atribuição de propor ao governo federal diretrizes e prioridades da política de segurança alimentar e nutricional.” O caos se instaura e todos os alunos falam ao mesmo tempo. Quem demonstra interesse e preocupação pelo tema é violentamente rechaçado e acusado de ser comunista. Alguns gritam algo sem sentido sobre o mercado financeiro e sobre um ex presidente ladrão. A bolsa de valores é citada, mas ninguém entende o porquê. Os alunos se levantam e propõem chamar a diretora e expor a professora na internet. Acossada na parede da sala de aula, a professora fome diz sua última frase: “A fome tem gênero e raça. O II Inquérito da Rede Penssan mostrou que seis a cada 10 lares comandados por mulheres convivem com a insegurança alimentar e que 65% dos lares comandados por pessoas pretas estão na mesma situação. A mulher negra está na base da exploração dessa sociedade extremamente desigual e a fome é uma das manifestações do encontro explosivo entre machismo e racismo.” Ninguém lhe dá ouvidos.

“O que eu aviso aos pretendentes a política, é que o povo não tolera a fome. O Brasil precisa ser dirigido por uma pessoa que já passou fome. A fome também é professora” é um trecho do livro Quarto de Despejo – diário de uma favelada, escrito por Maria Carolina de Jesus e lançado em 1960. Nosso oitavo livro do Clube de Leitoras, a obra foi lida durante a campanha eleitoral de 2022 e nossa discussão aconteceu entre o primeiro e o segundo turnos da votação presidencial. Mulher preta, mãe e periférica, Maria Carolina escrevia para enganar a fome. Em muitas entrevistas, definiu-se como autodidata – tinha aprendido a ler e escrever com os cadernos e livros que catava nas ruas. Escrito durante os anos de 1954 até 1960, Quarto de despejo narra o cotidiano de uma mulher preta e pobre em um país em conflito. Inconformados com a vitória de Juscelino Kubitschek para presidente em 1955, militares brasileiros tentavam fortalecer a tentativa de um golpe.

Com seu projeto “nacional[1]desenvolvimentista”, Kubitschek alcançou resultados impressionantes na economia, sobretudo na área da indústria, porém, contribuiu abertamente para agravar problemas crônicos do nosso país.

Os baixos investimentos nas áreas de educação e alimentação contribuíram para agravar o problema da fome, da distribuição das terras produtivas e do acesso à educação dos mais pobres. Essas questões se agravaram e estouraram durante os anos 1960, principalmente nos anos do governo de João Goulart e foram um dos fatores sócio-econômicos e políticos que ajudaram a justificar o golpe militar de 1964.

Quarto de despejo é um dos livros mais atuais do Brasil. Somos todas contemporâneas de Maria Carolina de Jesus, mesmo vivendo mais de 60 anos depois do lançamento de seu livro. Em suas páginas, ela escreveu que o Brasil deveria ser governado por alguém que já passou fome e, 40 anos depois de seu diário, isso realmente aconteceu. Infelizmente, depois de poucos e custosos avanços, depois de sairmos do mapa da fome em 2014, fomos atirados de volta para ela, milhões de brasileiros despejados e sem saber se vão comer no dia seguinte. A professora fome de 2022 é desrespeitada e calada – afinal, vivemos tempos em que nem os padres podem usar sua autoridade religiosa para ajudar os cristãos a aprenderem com ela, a se sensibilizarem com os ensinamentos de Jesus Cristo. A nossa cicatriz escravocrata é profunda.

As senzalas se reproduzem, mesmo mais de 100 anos depois da Lei Áurea.

A Casa-grande não cede espaço em suas regalias e acirra a exploração, a violência e a morte da maior parte da população brasileira. Morre-se de tiro. Morre-se de fome. Morremos de trabalhar e lutar por um estado justo e menos desumano. Lendo Quarto de Despejo, ficamos com a dúvida: o Brasil não muda porque não aprende ou não educa com o firme projeto anticivilizatório de manter tudo como está, tudo como sempre foi?

Eis o que o conservadorismo quer conservar nesse país, na verdade: a exploração da mão de obra deseducada com trabalho análogo à escravidão. Os lucros recordes que são o roubo dos salários. Os espaços separados entre ricos e pobres mantidos pela especulação imobiliária. A ausência de estado que só chega quando carrega um fuzil. Os ossos para os famintos e os pastos para o Agronegócio. Os pobres vivem em um quarto de despejo chamado Brasil. A Casa-grande renomeada Vivendas da Barra.

Ai daqueles que não conseguem enxergar qual a real paisagem que se estende do lado de fora de suas janelas. Qual o seu devido lugar em um país tão escancaradamente cruel.

 

Reportagens citadas por esse artigo:

https://m.historiadomundo.com.br/amp/idade-contemporanea/governojuscelino-kubitschek.htm

https://www.brasildefato.com.br/2022/07/25/analise-a-luta-da-mulhernegra-e-a-resistencia-da-agricultura-camponesa-contra-a-fome

https://economia.ig.com.br/2022-09-20/brasil-mapa-da-fomelive.html.amp

https://economia.ig.com.br/2022-09-14/fome-brasil-33-milhoes.html

https://www.correiobraziliense.com.br/brasil/2021/06/4934228-nao-e-soefeito-da-pandemia-por-que-19-milhoes-de-brasileiros-passam-fome.htm

 

Olivia Batista de Avelar. Professora de inglês, pós graduada em filosofia, apaixonada por cinema e escritora
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