Um príncipe em Nova York 2

Um príncipe em Nova York 2
Olivia Batista de Avelar

Um clássico da Sessão da Tarde dos anos 90: Um príncipe em Nova York era exibido com muita frequência e era, juntamente com outros filmes produzidos nos anos 80 nos Estados Unidos, um dos meus preferidos. No Brasil da minha infância, no Brasil antes do Plano Real, a minha admiração pelo cinema só podia ser vivenciada acompanhando a programação de filmes da Globo.

o SBT e a Rede Manchete não sintonizavam bem na nossa televisão, nem com muita manobra de antena e bombril. Outros tempos.

Um Príncipe em Nova York 2 – Prime Vídeo, 2020 – mostra a vida do personagem Akeem, vivido por Eddie Murphy, mais de 30 anos depois de ele ter visitado o Queens a procura de uma rainha para amar e construir uma família. O início da história: um homem rico, príncipe herdeiro de um reino africano, viaja sobre o Atlântico em busca de um grande amor. Em busca de alguém que o ame por quem ele é de verdade, não por seu poder e por sua coroa. No segundo filme, já casado com Lisa e chefe de uma família com três filhas, ele retorna a Nova York para procurar por um filho, nascido de um único encontro com uma mulher de quem Akeem não se lembrava.

É a modernidade líquida, escorrendo pelas frestas do tempo, alcançando o passado e alterando a história de um personagem ingênuo, de uma história simples e romântica, para atualizá-la às necessidades da contemporaneidade.

Não pretendo defender que “o passado era mais fiel, romântico ou que não existiam encontros casuais que seriam esquecidos em pouco tempo”, mas me pergunto se a descrença e o cinismo dessa pós modernidade não sente a necessidade de “atualizar” histórias e personagens e suas motivações: Akeem queria amar e inserir uma nova cena, inexistente no primeiro filme, pode até passar como recurso de roteiro de um filme despretensioso de comédia, mas também pode refletir muito daquilo que nos tornamos e do que a plateia espera de um filme, na atualidade.

É maravilhoso reencontrar os personagens do primeiro filme. É lindo ver o Reino de Zamunda, com suas cores e belezas, em uma tela com muito mais definição de imagem do que a da nossa antiga TV de tubo com 20 polegadas. Porém, o que me vem à mente e ao coração, é a dúvida:

será que hoje, em 2021, essa história encontra espaço e terreno fértil para encantar e tocar pequenas meninas de nove anos de idade que um dia vão crescer e continuar apaixonadas pelo cinema?

Mudamos, todos nós e, por isso, mudaram também os filmes? A imensa profusão de obras fílmicas à nossa disposição nos incita a esquecermos delas momentos depois de as assistirmos, tratando essas histórias e esses personagens como o atualizado Akeem, que nem chegou a se esquecer de uma mulher com quem passou uma noite: pois, até certo ponto da história, ela nunca tinha existido.

Prefiro guardar uma memória singela de Zamunda e daquilo que me encantava nesse filme, quando eu era criança. O cinismo e a descrença andam de mãos dadas com o passar dos anos e com as exigências da vida adulta, eu sei, é inevitável. Posso consumir o filme produto em 2021 e me esquecer de muitos deles pouco tempo depois – não sou imune aos tempos modernos e seus flashes curtos e frios também me atingem, alteram e consomem.

Porém, permitir que um anacronismo altere uma das minhas memórias mais ternas e que envenene uma fonte ainda pura das minhas memórias e dos personagens e das histórias que me encantaram quando eu era criança, isso eu não permitirei jamais.

Olivia Batista de Avelar. Professora de Inglês, pós graduada em Filosofia, apaixonada por Tarot e Astrologia e Escritora
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