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Elvis: o filme que nos convida para um banquete com os deuses

olivia-15-08-2023
Olivia Batista de Avelar

Mesmo antes da pandemia de COVID 19 e do longo período de distanciamento social que vivemos – pelo menos aqueles que puderam ficar em casa e os que estavam conscientes dessa necessidade – eu já estava um pouco ausente das salas de cinema. Muitos eram os motivos, mas todos eles sempre me pareceram, sendo bastante sincera, desculpas lapidadas com esmero e perpassadas pelo cansaço e o desânimo. Em seu livro “Banquete com os Deuses” – publicado em 2003 – Luís Fernando Veríssimo escreve, em crônica intitulada O cinema e eu: “Teve sábado em sua vida em que você foi à sessão das oito, das dez e da meia-noite (…) hoje é difícil estacionar o carro, os cinemas não tem conforto, tem sempre o mesmo casal na fila de trás que não para de falar (…) e você trai o cinema. Calhordamente, você esquece tudo o que ele fez por você e o abandona.” Esse é o final da crônica que passeia por fases imaginadas pelo autor para descrever as atitudes e os sentimentos de um apaixonado por filmes em diferentes momentos da vida. Desde que conheci esse texto, me observo, de soslaio, e sempre me perguntando: “será que já cheguei à fase nostálgica, de só gostar dos filmes da minha juventude?” Ou, ainda: “definitivamente, hoje escolherei um filme de uma plataforma de streaming e, do meu sofá, trairei o cinema mais uma vez.”

Veríssimo é genial e irretocável. Suas crônicas me ensinam e me comovem há muitos anos e assim será, ainda e com certeza, por muito tempo. No entanto, depois de assistir ao filme Elvis – dirigido por Baz Luhrmann e disponível nas salas de cinema de todo o Brasil – me peguei pensando e elaborando e editando – sentimentalmente, como há de ser – uma fase “póscréditos” para chamar de minha; uma fase que não está nessa bem humorada e tão pungente crônica do autor gaúcho e que tive a felicidade de me deparar com ela eu mesma. Quem sabe, apenas uma fase nova e diferente. Mais um estágio dentro da história e da vida de alguém que ama o cinema e que pontua suas emoções, decisões e verdades por ele. Alguém que enxerga a si mesma muitíssimo influenciada pelas lentes dos grandes diretores de todos os tempos. Uma fase que quero nomear como a redenção.

Certamente, jamais adicionarei a minha própria percepção – mesmo sozinha e em silêncio, quando penso e rumino a respeito dos filmes em profunda sisudez e silêncio – à tão bem alinhavada crônica do autor e cinéfilo de Porto Alegre. Compartilho aqui, humilde e serenamente, a primeira entre as fases que estão nascendo da minha experiência inspirada por Veríssimo e da minha trajetória na companhia de tantos filmes queridos. E, de forma tão encantadora, me sinto feliz que o que escreverei aqui se deu à luz e às cores eletrizantes das cenas criadas por um dos diretores que mais impactaram a minha vida.

A sensação que sempre me moveu em direção ao cinema é a paixão. Sair de casa em frenesi, sem pensar sobre a trama ou a trilha, duração do filme ou atores do elenco, sem ler coisa alguma que exalte ou critique a obra, o diretor, a produção.

A pura e simples expectativa que antecede um encontro às cegas, que pode ou não se tornar um dia a ser lembrado por toda a vida. Que pode ou não ser um desastre, um arrependimento completo e absoluto. Que pode, tristemente, não passar de algumas poucas horas que serão esquecidas tão logo outros filmes entrem em cartaz. O frio na barriga antes de uma aposta que não só faz parte do jogo, mas que é o próprio jogo. Já escrevi muitas vezes o que direi aqui, novamente, porque é um pensamento recorrente meu e que sempre encontra novas formas de se expressar e de se ligar ao que quero conversar sobre, nessas colunas: a caixa escura do cinema e a imagem que é a única coisa que conseguimos ver à nossa frente imitam e reproduzem o formato dos nossos sonhos. Permitir-se esse mergulho é o maior – senão o único – presente que a indústria cinematográfica nos entrega de graça.

É por isso que nunca me propus a estudar crítica cinematográfica, porque não quero pensar, entender ou explicar o cinema. Eu quero e preciso senti-lo. E foi o que fiz, inesperadamente e depois de um longo período de dormência e letargia, assistindo à história real e fantástica do menino que se transformou em um Deus.

A frase que usei ao terminar o parágrafo anterior é pronunciada pelo personagem interpretado por Tom Hanks e marca o momento em que comecei a perceber que algo estava acontecendo – na tela e em mim. Não me considero uma grande fã de Elvis Presley, apenas alguém que ouve suas músicas como quem sempre busca por um paraíso perdido – a voz desse cantor estadunidense sempre me levava para um lugar e um tempo onde os astros eram consagrados por seu carisma incomparável, pelo inexplicável talento, pela forma profundamente humana e, de alguma forma, sobrenatural, de nos captarem por dentro e de fazer se mover em nós o intangível e o divino. Meu fastio com a infindável lista de filmes repetitivos e sem alma, com as arrastadas continuações de coisa alguma e, também, com os filmes cerebrais com roteiros elaborados e muito aclamados, mas que me davam tédio e sono desapareceu quando fui engolfada pela lisergia imagética de Baz e pela voz insuperável de Elvis, visceralmente encarnado/interpretado pelo ator Austin Butler.

Por duas horas e quarenta minutos, eu me lembrei de tudo que o cinema fez por mim. Fisgada pela nostalgia de me lembrar assistindo e devorando o filme Moulin Rouge – quando eu tinha 19 anos – obra que amo e do mesmo diretor de Elvis, todo o meu repertório de filmes do passado me serviu como mola, não como amarra. Seduzida pela nostalgia, o que eu senti a partir dali, em cada cena, cada música, cada figurino deslumbrante, cada olhar do protagonista diretamente dentro da câmera, cada verdade, cada mentira, cada show e cada silêncio foi algo novo e inexplorado.

Uma prova, um vislumbre de tudo que ainda está por vir, do quanto o cinema ainda tem e vai, certamente, me proporcionar.

Durante muitos anos, fiquei engasgada com as novas produções que não me desciam e não me encantavam. Por muito tempo, eu construí para mim um lugar de memórias sobre um tempo em que a exuberância que eu experimentava nos filmes era diária, efervescente, e, como sempre é, perdida para sempre. Nomeei minha fase de “redenção”, pois foi com esse filme que finalmente duas pontas soltas se juntaram, dentro de mim, com relação aos filmes: rever e revisitar os filmes que me constroem é lembrança e deve se manter em seu precioso, porém devido, lugar. Tudo que, hoje, eu sei e percebo com relação aos filmes, não vai fazer aflorar em mim, racionalmente, a mesma paixão que eu considero primordial de se encontrar em um filme. No entanto, a junção de ambas as fontes – um filme que relembre e reafirme o que fui e o que já senti e que, num piscar de olhos, me transporte para um lugar inteiramente novo e instigante, esse será o filme que ficará gravado e marcado em mim como eu preciso e quero que seja.

Quando saímos do cinema, à noite e sem rumo, ainda tentando agarrar as cenas mais impactantes com as pontas dos olhos e com o brilho da memória. Quando guardamos pequenos souvenires como troféus de um dia extremamente bom. Quando perdemos as palavras e às encontramos nas falas dos personagens e nas músicas de uma trilha sonora inesquecível. Quando tudo isso acontece, significa que nos deixamos levar.

Que reencontramos aquela sensação de que um filme para ser especial precisa parecer que foi feito só para nós.

Hoje, não procuro o arrebatamento diário e contínuo dos meus primeiros anos de amor pelo cinema. Tampouco, me entregarei ao tédio cerebral e cínico de olhar para a tela como quem demanda dos filmes o entretenimento e o espanto que faltam à vida real. Minha redenção, ao encarar as imagens refletidas naquela tela, foi entender que, aos olhos que já assistiram muito, um filme precisa seduzir, precisa dizer que se lembra de quem nós fomos, mas que a qualidade dos encontros irá suplantar, em muito, a frequência com que eles acontecerão. Ao assistir a esse filme, sinta-se convidado para um raro banquete onde nos sentaremos e beberemos e brindaremos – por algumas horas e por toda nossa vida depois desse dia – com os Deuses. Minha redenção foi plena e perfeita. Dancei com Baz ao som da voz imortal de Elvis. Estremeci de encantamento e chorei comovida pelos extremos de um personagem maior que a vida.

Não esperarei ansiosa e apressada pelo próximo momento, pela dose maior e mais impactante de outro filme, pretendo me demorar e sorver o instante. Outros virão, mais cedo ou mais tarde, mas como sei que todos são irrepetíveis e irretocáveis me permitirei esticar esse deleite por dentro e à eternidade.

 

Olivia Batista de Avelar. Professora de inglês, pós graduada em filosofia, apaixonada por cinema e escritora
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